A delicada relação entre pais e filhos Ana Claudia Ferreira de Oliveira anaclaudia_fo@hotmail.com Psicóloga Clínica, Psicoterapeuta Psicanalista e Advogada em São Paulo/Brasil. Colunista e colaboradora em temas de qualidade de vida, saúde, comportamento e educação do jornal ´Folha da Cidade´ e Rádio ´Nova Regional FM´, ambos do interior de São Paulo 2007
Idioma: Português do Brasil Palavras-chave:
Contributos para uma reflexão sobre estruturas de personalidade de um
nadador de alta competição
Como se não bastasse a onda de violência e criminalidade que
atinge o país todo e o mundo, temos ouvido nos últimos tempos, muitas notícias
de filhos que matam seus próprios pais em situações de extrema crueldade.
Problemas e dificuldades familiares são expostos nas páginas criminais dos
principais jornais.
Pais e mães com filhos adolescentes ou pré-adolescentes têm
recorrido a profissionais como psicólogos, psiquiatras e educadores, na procura
de respostas e conselhos sobre o que fazer com seus filhos quando esses costumam
apresentar problemas como: comportamentos socialmente inadequados, dificuldades
de relacionamento interpessoal, bem como problemas de adaptação escolar e
aprendizagem. As maiores queixas ficam entre os comportamentos sociais
inadequados e dificuldades de convivência familiar. A situação anda tomando uma
tal proporção, que alguns pais começam a trancar a porta de seus quartos, na
hora de dormir, e enquanto outros vão mais longe ainda, blindando as paredes e
portas de seus quartos.
Horrorizados, muitos se perguntam “o que estará acontecendo
com nossos jovens?” E, penso eu, que a questão poderia ser pensada de outra
forma: “O que estará acontecendo com nossos pais e mães que parecem estar
esquecidos de sua função de educadores desses jovens?”
Olhando um pouco para trás, percebemos que a partir da década
de 60 e da revolução sexual, tivemos o início de uma transformação nos costumes
e valores válidos em nossa sociedade. Entre tantos outros conceitos
questionados, os modos de educação mais repressores foram postos em cheque, e
começou a se erguer a bandeira da educação mais liberada para prevenir os
“traumas” que uma educação muito repressora poderia causar na vida emocional dos
filhos.
Ainda, com o desenvolvimento das pesquisas na área da
psicologia e psicanálise, enfatizando a importância da influência do ambiente na
formação de um indivíduo, a questão da educação dos filhos tem merecido um maior
cuidado por parte de educadores, psicólogos e estudiosos de várias áreas. Muitas
são as teorias novas que surgem sobre o que fazer, como proceder, tudo na
tentativa de orientar os pais nessa difícil tarefa.
Com isso, tivemos uma mudança de panorama.
Se pelas gerações antigas a criança era tratada como um “mini-adulto”,
sem direito a desejos e vontades, sem direito a quaisquer cuidados especiais em
respeito à sua condição de criança, parece-me que as gerações mais jovens,
talvez tenham pecado pelo excesso, no sentido inverso, passando a tratar a
criança como um “rei no trono”.
Tudo passaria a ser motivo de trauma para a criança e para o
adolescente. Se uma criança apanhava, era castigada, ou apenas repreendida, já
se poderia considerar isso como motivo de trauma.
É claro que não estou falando aqui a favor de prática de
maus-tratos contra a criança ou o jovem, e isso é uma questão seriíssima que vem
sendo tratada com muito mais respeito, nos últimos tempos, graças também a essa
transformação social que se operou, e que mereceria outro momento de discussão.
Mas, nem de longe, podemos pensar que pais e mães não possam repreender seus
filhos. Essa é uma função muito importante no processo de educação. A educação é
feita com base no afeto que se transmite ao filho, e com base no limite que se
pode dar a ele também. A criança precisa conhecer o amor, a amizade, o respeito
e a consideração, mas também, quais são os limites que ela tem de respeitar,
entre a vida dela e a do outro, para que ela possa tornar-se um ser humano apto
para a vida em comunidade.
A atenção e o respeito que devem ser dados à criança não
podem provocar uma inversão na ordem das gerações entre pais e filhos. Esse é o
pior desserviço que um pai pode prestar a um filho.
Os pais precisam colocar limites para seus filhos crescerem.
A criança é um ser com uma quantidade enorme de energia, que precisa, desde
cedo, ser bem canalizada. Ela precisa aprender a gerenciar essa energia
adequadamente e, para tanto, precisa de um enquadramento e um direcionamento
que, principalmente, aos pais cabe dar.
Hoje em dia, também é muito comum ouvirmos que pais e mães
precisam ser amigos de seus filhos. Aqui, igualmente, é preciso ter cuidado com
a inversão de ordem.
É muito importante que pais e mães possam ser amigos de seus
filhos, mas, antes de qualquer outra coisa, por amor a seus filhos, os pais têm
o dever de educá-los, de colocar limites, estabelecer proibições. O que se
espera de pais amigos de seus filhos, inclusive o que os próprios filhos
precisam são de pais e mães mais próximos, mais disponíveis, abertos a
escutá-los, a discutir e orientá-los naquilo que eles lhes solicitarem, ou
naquilo que os pais entenderem necessário fazê-lo. Mas, precisam igualmente de
pais que saibam dizer não, estabelecer o que é certo e o que é errado, e quais
os limites que precisam ser seriamente respeitados.
Se os pais se comportam somente como amigos de seus filhos,
podemos nos perguntar “quem estará fazendo o papel dos pais em seu
lugar?” E esse é um grande perigo, pois a criança e o jovem precisam de
orientação adequada e segura, além de alguém que apenas os ouça e os aconselhe
como um amigo faria. Precisam, sim, de alguém que funcione como um porto seguro
para onde recorrer, quando surgem os problemas e não sabem o que fazer, mas
precisam que esse porto seguro seja suficientemente firme e forte para
orientá-los quando não sabem como proceder, para repreendê-los quando estiverem
errados e para ensiná-los a respeitar a si mesmos, e aos outros, preparando-os
para a vida em comunidade.
Quando se inverte o sentido dessa relação, com os filhos
colocados em um trono, ou tratados como um rei, e com os pais deixando de
cumprir sua função de educadores, as crianças crescem sem orientação, sem
limites, sentindo-se sozinhas e desconectadas de sua própria família, sem uma
verdadeira identificação com esses pais, pois lhes faltam um modelo forte,
seguro e afetivo, que elas possam admirar, seguir, amar e respeitar.
Para educar um filho não há fórmula ou manual que se possa
seguir, pois cada filho e cada pai e mãe são únicos em sua natureza. Todos
precisam ser respeitados. Nós escolhemos com quem vamos nos casar, de quem vamos
ser amigos, mas não escolhemos nossos filhos e nossos pais. Apenas temos que
conviver com eles, e essa convivência nem sempre é fácil. Porém, uma coisa é
certa, e precisa ser lembrada: Educar é também frustrar; é dizer não e
contrariar a vontade do filho, quando necessário. Não há como escapar disso, sob
pena de o próprio filho sofrer as conseqüências em sua saúde física e mental.
Não há como ser bom pai ou boa mãe só esperando serem amados por seus filhos. É
preciso, muitas vezes, suportar a frustração de ser odiado por seu filho num
dado momento, para o próprio bem dele no futuro, ainda que isso, na maioria das
vezes, custe muito caro aos corações dos pais e mães.
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