A Mentira Rui Manuel Carreteiro psiclinica@rc-grupo.com Psicólogo Clínico 2004
Artigo publicado na revista Sábado de 09/07/2004.
Idioma: Português Palavras-chave: Mentira, mentir
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A mentira é tão frequentemente utilizada que o seu sentido ultimamente
parece tender a ser banalizado. Segundo as estatísticas (citadas por Roque
Theophilo), mentimos cerca de 200 vezes por dia e em média uma vez por cada 5
minutos.
Começando pelos falsos elogios - p.ex, essa saia fica-te mesmo bem -,
passando pelas desculpas "esfarrapadas" - p.ex., não pude fazer os
trabalhos de casa porque faltou a luz - ou pelas mentiras descaradas, chegam
mesmo existir casos em que os pais, que parecem tão preocupados quando os
filhos mentem, os incitam a mentir - p.ex. quando lhes pedem para dizer que eles
não estão em casa.
A mentira pode surgir por várias razões: receio das consequências (quando
tememos que a verdade traga consequência negativas), insegurança ou baixa de
auto-estima (quando pretendemos fazer passar uma imagem de nós próprios melhor
do que a que verdadeiramente acreditamos), por razões externas (quando o
exterior nos pressiona ou por motivos de autoridade superior ou por co-acção),
por ganhos e regalias (de acordo com a tragédia dos comuns, se mentir trás
ganhos vale a pena mentir já que ficamos em vantagem em relação aos que dizem
a verdade) ou por razões patológicas.
Na infância mentimos para nos isentarmos das culpas. Muitas vezes os
adolescentes descobrem que a mentira pode ser aceite em certas ocasiões e até
ilibá-los de responsabilidade e ajudar a sua aceitação pelos colegas.
Algumas crianças e adolescentes que geralmente agem de forma responsável,
podem cair no vício de mentir repetidamente ao descobrir que as suas mentiras
saciam a curiosidade dos pais.
Para alguns investigadores, as crianças aprendem a necessidade de mentir (p.ex.
não demonstrar descontentamento com as prendas recebidas sob pena de não
receberem mais) tão cedo quão mais inteligentes forem.
Face à sua frequência, existe uma certa tendência para banalizar ou até
catalogar a mentira como positiva - a "mentira branca" é considerada
como uma forma de facilitar a integração na sociedade, e muitas vezes os que
não a utilizam são catalogados como ingénuos -, mas há que não esquecer que
durante toda a história da humanidade a mentira causou muitos sofrimentos e fez
derramar muitas lágrimas sobretudo quando projectada sob a forma de calúnia
Quando as crianças ou adolescentes mentem, os pais devem conseguir
distinguir entre a realidade e a mentira e falar abertamente com eles sobre os
aspectos pejorativo da mentira, e as vantagens que a verdade lhes trará. Em
casa a criança deverá encontrar exemplos de verdade e honestidade que fomentem
a sua atitude de sinceridade.
Durante os primeiros anos as crianças não distinguem a realidade da
fantasia, mas cedo começam a utilizar a mentira por proveito próprio.
Sensivelmente por volta dos 7 anos as crianças já têm capacidade para
distinguir claramente o verdadeiro do falso, e os adolescentes passam a
conseguir discernir com relativa facilidade quem está a mentir ou a ser
sincero.
A mentira existe ao longo de toda a escala patológica. A saúde mental só
é compatível com a verdade. De nada serve querer acreditar que o nosso
familiar não faleceu quando na realidade isso não é a verdade, de nada serve
acreditarmos que somos capazes voar se na realidade não temos asas.
Nos estados neuróticos, a mentira pode surgir com base numa incapacidade da
consciência aceder a factos recalcados e que se encontram no nosso
inconsciente, ou por problemas de auto-estima e auto-imagem que despoletam a
necessidade de fazer passar uma auto-imagem melhor do que a que acreditamos ter.
Nos estados limite, a mentira aparece frequentemente devido à falta de
barreiras externas que balizem o comportamento. Esta situação surge
frequentemente em filhos de pais muito repressivos ou demasiadamente
permissivos.
Nas psicoses, a mentira surge na forma de delírio, uma descrição que as
próprias pessoas admitem como verdadeira, apesar do seu aspecto frequentemente
bizarro, devido a uma quebra de contacto com a realidade
A mentira pode ainda surgir como uma dependência, quando dita de uma forma
compulsiva. Os dependentes da mentira sabem que estão a mentir mas não se
conseguem controlar, num processo que surge de uma forma muito semelhante ao do
vício do jogo ou à dependência de álcool ou de drogas.
Esta incapacidade em controlar os impulsos é causadora de um sofrimento
nítido razão pela qual deve ser alvo de tratamento. Nos dependentes da
mentira, o primeiro passo a dar consiste em assumir que existe um problema e de
seguida procurar ajuda para esse mesmo problema. A nível da abordagem
terapêutica o tratamento passa geralmente pela realização de uma terapia
psicológica.
Ao nível das provas psicológicas a mentira pode obviamente influenciar a
validade dos resultados ou pela tendência do sujeito em simular um desempenho
superior (faking good) ou inferior (faking bad) ao da realidade.
Por estas razões grande parte das provas psicológicas apresentam formas de
controlar a veracidade das respostas quer a partir da própria atitude do
sujeito a analisar quer mesmo através de índices de consistência interna,
teste-reteste ou confrontação com familiares e amigos próximos. Entre estas
formas de dissimulação revela-se frequentemente também averiguar até que
ponto as simulações surge de forma consciente ou inconsciente relativamente ao
sujeito.
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