Lógica da depressão Antônio de Oliveira isaco@terra.com.br 2004
Idioma: português do Brasil Palavras-chave: Depressão
Mais conhecida e identificada pelos seus sintomas
Mais conhecida e identificada pelos seus sintomas, depressão, como tal, é um
distúrbio, um estado psicológico de adinamia, desânimo, sensação de cansaço,
quadro clínico que pode incluir também ansiedade, em maior ou menor grau;
prostração ou abatimento intelectual, moral, físico; letargia, estresse,
estricção, perturbação da homeóstase, falta de forças ou debilidade geral;
melancolia. O designativo melancolia vem do grego mélanos (preto) e
kóllos (bílis). Bílis, um líquido esverdeado, amargo e viscoso, segregado
pelo fígado e que, por meio de canais próprios, é levado ao duodeno, influindo,
de modo especial, no processo da digestão. Por isso, figuradamente, por extensão
e analogia, bílis significa mau humor, irascibilidade, hipocondria. Se o fígado
não está funcionando bem, a bílis fica preta e pode afetar o comportamento
humano, caracterizando quiçá uma pessoa de maus bofes. E aí, com o perdão da
expressão politicamente incorreta, a coisa pode ficar preta.
O terreno da depressão psicológica, ainda que possa parecer o contrário, é
universo fértil da lógica. Aliás, a lógica menos lógica é a do equilibrado,
porque flexível. Inflexível é a lógica do terrorista e do fanático; do
subversivo e do alienado, porque escalar, menos inflexível na prática. Ou
melhor, e mais precisamente: fundamental é o ponto de partida, o princípio
gerador das ações ou inações e o entusiasmo com que daí se parte. A lógica conta
a partir daí. Nesse sentido se pode falar, inclusive, em lógica das paixões. O
incitamento à inveja (“argumentum ad invidiam”) tem proporcionado o urdimento de
tramas tanto na literatura como na vida real. E um dos alimentos da paixão pode
ser a depressão.
Depressão psicológica, também por analogia, lembra abaixamento de nível
causado por pressão ou peso. Todo viver, aliás, tem seu peso, que pode provocar
verdadeiras crateras, erosões laminares, em sulcos ou voçorocas abissais. E
abismo atrai abismo: “Abyssus abyssum invocat”. Um abismo chama outro abismo,
constata o Salmista (Sl. 41, 8; 42, 7) / (quando) ao fragor de tuas cascatas /
tuas ondas e tuas vagas rolaram sobre mim. Uma desgraça nunca vem sozinha, seja
pela lei de Murphy seja porque, para baixo, até o diabo empurra. Por isso entrar
na fossa, ficar na fossa significa estado de angústia, depressão profunda e
funda, cair no buraco.
Depressão é o oposto da sublimação, que consiste num processo inconsciente
para desviar a energia da libido, caracterizada por paixões e pulsões, energia,
elã vital e criador, para novos objetos, de caráter útil, agradável. Sublimação
opõe-se a letargia, a imobilidade por largo tempo, freqüentemente homem e
mulher, uma pessoa em frente à outra, como dois contendores se estudando em
silêncio e medindo forças ou, na linguagem certeira de Euclides da Cunha (Os
Sertões, p. 584), parecendo refletir a adinamia do mesmo esgotamento,
espiando-se e se expiando, solertes, traiçoeiros, tocaiando-se.
O estado de depressão é mais lógico que o de sublimação, como a vingança é
mais lógica que o perdão. Porque dinâmico, o estado de sublimação é absorvente e
construtivo; rígida como a lógica, a depressão é árida, neutra, em si, de um
desejo estático de vingança que não se realiza ou se realiza brutalmente. Uma
vez deprimidos, queremos a razão ou explicação de tudo, num processo de
regressão. O regressivo, com efeito, está sempre recapitulando, sempre voltando,
sempre puxando o fio solto para desembaraçar o novelo mas sem nunca cortar o nó
górdio, antes deleitando-se na tentativa de desembaraçá-lo, sempre querendo
descobrir a origem, passando tudo a limpo, em firulas, indo de causa em causa e
examinando até atrás das causas, ele próprio às vezes uma causa perdida. Vai, de
maneira inversa, do “ciao” de despedida ao “oi” inicial, escarafunchando
meandros e protestos do coração de frente para trás no misterioso e labiríntico
baú da memória, até a primeira lembrança, até o quadro em branco, até uma
espécie de “tabula rasa in qua nil erat scriptum”. O deprimido costuma ser um
especialista em “curriculum vitae”. Se perdemos alguém num acidente, deprimidos,
queremos saber por quê. Logo agora? Tanta gente ruim pra morrer... Por que logo
comigo? Por que sou tão marcado pela vida? Por que comigo nada dá certo? Por que
os sonhos dos outros se realizam e os meus, não? Por que me casei com tal
pessoa? Por que tive filhos? Por que todo mundo passa em concurso e eu não? Por
que todo mundo (todo mundo?) ganha dinheiro e eu não? Por que quem parte e
reparte sempre fica com a melhor parte e eu parto e reparto e fico sempre com a
pior parte? Por que outros têm espaço na mídia e eu não?
E como não encontramos boas razões para tantas elucubrações de caráter
personalíssimo, a lógica nos deixa e nos mantém, por mais ou menos tempo, num
patamar inferior da existência, no nosso submundo intelectual pretensamente
superior. E como nenhum componente do nosso ser é uma ilha no organismo, logo
sobrevêm as conseqüências de tônus psicossomático, contrações musculares, por
exemplo, tremuras, quando não sérias patologias orgânicas.
A depressão, portanto, e por sua vez, é irmã gêmea da frustração. No estado
de frustração, pela ausência de um objeto ou por um obstáculo externo ou
interno, a pessoa se priva da satisfação dum desejo ou duma necessidade.
Deprimido, e não encontrando respostas lógicas para os problemas, inclusive
anteriormente superados e agora redivivos, ou não conseguindo transpor os
umbrais da sublimação, simplesmente me frustro. Observe-se, na verdade, que um
dos mecanismos psicológicos mais usados pelo frustrado é justamente o da
racionalização, em busca, justamente ou pelo menos, de pseudo-razões. Cabe
lembrar também que a sublimação exagerada, fruto mais de simpatia (nem sempre
mútua) que de empatia, pode também gerar frustrações. Pessoas que se doam em
excesso, exagerando na dosagem, no fundo, e instintivamente, gostariam que tais
esforços fossem reconhecidos, e nem sempre o são. Pelo contrário. De dez
leprosos curados por Jesus, apenas um voltou para agradecer. Aí a frustração vem
a galope e a pessoa favorecedora (o caso de Jesus é hors-concours) faz
questão de esquecer as pessoas favorecidas, considerando-as, mortas ou vivas
ainda, praticamente falecidas.
Psicologicamente, racionalização é a tentativa de justificar o
interesse conflitante de forma aparentemente racional (desculpa para tudo), por
um mecanismo de acomodação ou adaptação da mente. Um torcedor militante e
fanático costuma camuflar as derrotas de seu time favorito usando desculpas
manjadas, esfarrapadas: – Adversário desleal! Bandeirinha safado!... E
esculhamba o juiz: Um filho da p.! Juiz ladrão! Arbitragem ruim derrubou o time.
Locutores de futebol, no Brasil, driblam o erro de seu jogador preferido, que
chutou uma bola para fora, narrando disfarçadamente: “O campo estreitou” ou “O
campo acabou de repente”. Jurados das escolas de samba, no Rio de Janeiro, para
os perdedores, são sempre tendenciosos.
De acordo com a fábula de Fedro A raposa e as uvas, uma raposa faminta
se frustra por não alcançar as uvas em alta parreira, desculpando-se logo com a
alegação de que as uvas, inatingíveis para ela, estariam verdes, portanto
azedas. Um aluno saiu-se mal na prova de Lógica Jurídica. Embora sem poder negar
os erros efetivamente cometidos, a exemplo da raposa preferiu iludir-se na
autodefensiva: – O professor é de amargar: não explica nada direito, não sabe
ensinar nem avaliar. Ainda bem que passa rápido...
Tais justificativas não são objetivas e verdadeiras razões de fato, mas “boas
razões”, falácias lógicas travestidas de realidade, para livrar o interessado de
tensões conflitivas, no momento, quando o ideal seria aproveitar o tempo (“Carpe
diem!”, de Horácio). Costuma-se, inclusive, dizer “tudo bem” para qualquer
situação: – Acabo de ser assaltado, mas tudo bem... tal a necessidade de
encontrar “boas razões”, nem que sejam de acomodação. “Dar razões para o que se
faz ou se deixa de fazer é o que há de mais fácil, quando percebemos que as não
temos suficientes tratamos de inventá-las...” (José Saramago, Todos os nomes,
São Paulo: Companhia das Letras, p. 190).
Masoquisticamente, com as mesmas funções de reação das “uvas verdes”, existe
o fenômeno do “limão doce”: a pessoa atirada a uma situação intolerável,
racionaliza dizendo que até valeu a pena, porque valeu a experiência. O interior
sádico do deprimido também assim se revela, batendo em si e apanhando de si
mesmo.
Em suma, todo ser humano é um paradoxo ambulante, lidando sempre com um lado
positivo e um lado negativo, um lado bom e um lado mau, adotando verdades e
mitos, crenças autênticas e superstições grosseiras, ora parecendo que a verdade
está de um lado, ora do outro. Pedra preciosa nem sempre lapidada, trigo em meio
ao joio, ou mesmo santo de pau oco, de fundo falso, de inconsciente traiçoeiro e
de inconsciente coletivo, cultural. Ah, se me fosse dado aconselhar e, se não,
di-lo-ia para mim mesmo: tolerância! tolerância! tolerância! Na prática, sei
como é difícil. Mas somente admitindo modos de pensar, de agir e de sentir
diferentes dos meus ou de grupos determinados, políticos ou religiosos,
sentir-me-ei imbuído de outras lógicas, da depressão ao Olimpo, da letargia à
sublimação, do ateísmo à fé, do empirismo ao idealismo, do desânimo à disposição
de viver... minha vida, como eu sou, com meus familiares e colegas de trabalho,
em suma com minhas limitações, no espaço e no tempo. Plagiando Ortega y Gasset,
eu e minhas circunstâncias...
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