Gravidez na adolescência Armando Correa de Siqueira Neto selfpsicologia@mogi.com.br "Psicólogo e psicoterapeuta; desenvolve projetos e trabalhos para crianças e adultos, tendo por base o autodesenvolvimento e a psicologia preventiva. " 2004
Idioma: português do Brasil Palavras-chave: Projeto, identidade, consciência, conhecimento.
Resumo
Resumo
Existem algumas condições que propiciam a gravidez na adolescência, levando
milhares de jovens a uma experiência fora de hora, dada a inexperiência e
conseqüente dificuldade em cuidar do filho que chega.
Dentre os variados fatores que colaboram para que ocorra este fenômeno em
grande número, destacamos a falta de objetivos encontrada nos jovens de classe
social mais baixa, que acaba vislumbrando num filho a chance de ter um projeto
de vida, além de encontrar a oportunidade de constituir uma identidade, uma vez
que não consegue se inserir na vida profissional. Outras condições também se
encontram presentes na vida desta população que engravida neste período, tais
como lares desestruturados e com pequeno nível de comunicação entre pais e
filhos.
Introdução
O mundo vem assistindo a crescente onda de mães muito jovens, que dão a luz
numa época em que poderiam estar desenvolvendo algumas capacidades emocionais e
cognitivas, além de acumular experiência, dentro da liberdade que existe neste
período, próprio para viver diversas circunstâncias e posteriormente adentrar no
universo adulto, portando bagagem, mínima que seja, mas que possibilita então, a
constituição de uma família com um filho ou mais. Contudo, um número alarmante,
mostra muitas adolescentes que acabam tomando outro rumo e engravidam, iniciando
ai um cerceamento de suas atividades no campo do desenvolvimento profissional e
escolar, sem generalizar, porém, grande parcela delas, acaba restrita ao contato
com o lar onde reside.
Quais fatores colaboram no desencadeamento da gravidez na adolescência? A
esta pergunta, foi levantado um grupo de condições como resposta, além de alguns
itens fundamentais, que por seu turno, geram o impulso a se engravidar num
período onde as prioridades deveriam ser outras.
Gravidez na adolescência
Tem sido tarefa difícil explicar a causa de existir tantas adolescentes
grávidas, e seu crescente número a cada ano. De um lado, alguns profissionais
apontam para a falta de informação, de outro, a questão centra-se numa busca
pela identidade por parte dos adolescentes. Cabe o estudo e a reflexão acerca
das várias possibilidades que levam à gravidez na adolescência.
Kalina (1999) define que na adolescência, ocorre uma profunda desestruturação
da personalidade e que com o passar dos anos vai acontecendo um processo de
reestruturação. Baseado nos antecedentes histórico-genéticos e do convívio
familiar e social, e também pela progressiva aquisição da personalidade do
adolescente, é possível entender que esta reestruturação tem em seu eixo o
processo de elaboração dos lutos, a cada etapa deixada sucessivamente. A questão
familiar e social funciona como co-determinante no que resulta enquanto crise,
especialmente, à conquista de uma nova identidade.
O amadurecimento sexual do adolescente, de acordo com Tiba (1996), acontece
de forma rápida, simultaneamente ao amadurecimento emocional e intelectivo,
iniciando então, o processar na formação dos valores de independência, que acaba
por gerar pensamentos e atitudes contraditórios, especialmente quanto a
parceiros e profissões.
Aberastury (1983) diz se tratar de uma luta difícil para o adolescente
encontrar uma identidade, que ocorre num processo de longa duração, além de
lento, neste período, em que os jovens vão construindo a base final da
personalidade, de seu perfil adulto. Este processo acontece por meio de
tentativa e erro, em sua maior parte, buscando o verdadeiro eu, e acaba por
sofrer agonias e dúvidas, querendo ser diferente do que fora em sua infância,
num buscar uma identificação própria e diferente.
Podemos encontrar em Osborne (1975) aspectos importantes sobre pais que
valorizam a autonomia e a disciplina no comportamento, estimulam mais o
desenvolvimento da confiança, da responsabilidade e da independência. Pais que
são autoritários, os quais tendem à repressão dos desacordos, porém não podem
exterminá-los, e os filhos adolescentes provavelmente acabam sendo menos
seguros, pensando e agindo pouco por si próprios. Pais negligentes ou
permissivos que não oferecem o tipo de ajuda que o adolescente precisa; permitem
que seus filhos percam o rumo, não oferecendo a eles modelos de um comportamento
adulto responsável.
Vemos então, a enorme responsabilidade educacional durante o processo de
adolescência, e Sayão (1995) confirma tal postura com relação aos filhos, que
crescem e aos pais cabe a preparação sobre as mudanças no corpo e o aprendizado
de como lidar com a questão sexual, usando de honestidade e se preocupando em
transmitir valores, além das regras.
Ao tratarmos sobre prevenção da gravidez, podemos encontrar pesquisas
realizadas através de universidades ou do ministério da saúde brasileiro, onde
revelam constantemente que grande parte da população tem tido a informação
básica necessária sobre o uso de anticoncepcionais, e que apesar dos
adolescentes possuírem este conhecimento, acabam mantendo um relacionamento
sexual sem tomar os cuidados necessários e assim, como que numa “loteria”,
engravidam inesperadamente.
Se por um lado encontramos uma boa dose de informações que chega até os
jovens, por outro, percebemos a constante falta de diálogo entre pais e filhos,
não bastando apenas dizer ao adolescente para que use preservativo, mas também
esclarecendo sobre as decorrências possíveis, lembrando que uma relação afetiva
e estável tem maiores chances de entendimento neste diálogo. Os pais precisam se
preparar com conhecimento a respeito, trabalhar melhor sua participação em
assuntos “delicados” e, acompanhar equilibradamente a vida de seus filhos.
Outro ponto reforça a estatística sobre gravidez na adolescência, que
conforme Varella (2000) nos aponta que, os dados da Pesquisa Nacional em
Demografia e Saúde do Brasil, feita em mil novecentos e noventa e seis,
indicaram que quatorze por cento das meninas nesta faixa etária já tinham um
filho, no mínimo. Entre as parturientes que foram atendidas pelo Sistema Único
de Saúde, entre os anos de mil novecentos e noventa e três e mil novecentos e
noventa e oito, teve um aumento de trinta e um por cento dos casos de meninas
entre dez e quatorze anos.
Conforme Duarte (1997), podemos compreender que a gravidez na adolescência
não é um episódio, mas um processo de busca, onde a adolescente pode encontrar
dificuldade e acaba por assumir atitudes de rebeldia. As pesquisas realizadas
pela Secretaria de Saúde de São Paulo, mostram que o aumento do crescente número
de gravidez na adolescência não é a desinformação. Albertina revela que os
depoimentos das adolescentes são surpreendentes. "É comum ouvir das meninas, que
engravidaram porque se sentiram abandonadas, ou tinham medo de ficar sozinhas,
ou precisavam fazer alguma coisa na vida."
Parece que já nos habituamos a este fato, jovens com tão pouca idade se
tornando “mãe”, no sentido biológico, mas existindo pouco preparo ou estrutura,
evidentemente. Como é possível, jovens nesta faixa etária estarem preparadas
para cuidar de outro ser que requer tantos cuidados? Se o adolescente ainda se
encontra em reestruturação da personalidade, levando-se em conta o aspecto
emocional e financeiro, além da experiência de vida necessária, como poderá
atuar como alguém que necessita oferecer apoio e estruturação a outro?
Sabemos o quanto é importante passar por todas as fases naturais que a vida
oferece, como a infância, a adolescência, a fase jovem, adulta e a velhice,
períodos onde desenvolvemos estruturas que se auxiliam uma após a outra.
Costa (1997) relata sobre a criança de hoje, que é bastante precoce nas
questões da sexualidade, por meio de sua curiosidade em querer conhecer como se
formam os bebês e como ocorre a intimidade sexual. Há muitos casos onde as
crianças com idade a partir de seis anos, que já desejam olhar revistas de
mulheres nuas. Nesta esfera encontra-se a liberação sexual vivida atualmente, a
qual contribui para o aumento do número de adolescentes grávidas.
Aumentar a freqüência de informações dentro das escolas, através das aulas é
uma boa forma colaboradora, até que este assunto se incorpore definitivamente em
nossa cultura, que apesar de “moderna”, ainda é cheia de tabus e preconceitos.
Se a televisão em seus diversos horários, inclusive os de grande audiência,
transmite cenas de erotismo e sensualidade, pode também apresentar cenas de
prevenção e cuidados a este respeito, em boa dose e intensidade, não apenas em
alguns momentos especiais, aumentando conseqüentemente, o estímulo a esta
prática fundamental de prevenção, que se dá muito por meio da vontade.
Chamamos atenção para várias adolescentes que engravidaram, e alegaram que
mesmo tendo conhecimento sobre o tema, não sabiam explicar o fato de não terem
se prevenido, deixando o momento da relação aos cuidados da sorte.
Uma sensação maior parece tomar conta e assim não se pensa em mais nada;
apenas acontece a relação. Isto se dá pela falta de maior consciência a
respeito. Neste período de adolescência, no qual o jovem acredita estar pronto
para o mundo, e é nesta “coragem” que segue avante, mas ainda lhe falta
conhecimento e experiência, inevitáveis para lidar melhor com os fatos
importantes da vida.
Outra situação, como lares desestruturados, pode levar um adolescente a
procurar companhia num filho (Duarte, 1997), por não ter tido uma boa infância,
indicando, mais um item na lista dos agentes que fomentam este acontecimento que
vem crescendo em nossa época, e cabe refletirmos muito e agir ainda mais para
equilibrar o que a natureza nos concedeu: a continuidade da vida, na hora mais
adequada possível, onde um mínimo de estrutura esteja presente na relação de um
casal que pretende gerar e cuidar de tamanha preciosidade: o seu filho, ou seja,
nós, seres humanos.
Dos pontos sinalizados enquanto possibilidades causadoras, e desencadeantes
da gravidez na adolescência, entendemos que, este período de transição, pelo
qual passa o ser humano, é carregado de transformações físicas e psíquicas,
viabilizando uma instabilidade na estrutura da personalidade. Outro fator
relevante é a informação que orienta quanto aos cuidados sexuais, a qual mantém
o seu grau de importância, e deve fazer parte do contexto educacional a fim de
se incorporar, cada vez mais, nos hábitos cotidianos da população. Encontramos
ainda, a enorme exposição a estímulos na área sexual, a que as crianças se
encontram constantemente e as respostas que emitem, além de gerar uma
precocidade em suas atitudes neste mesmo campo. Por outro lado, há uma batalha
imediata, ligada à conscientização dos jovens quanto às questões emocionais e
sociais que podem levar a gravidez como forma equivocada de gerar identidade
nesta fase do desenvolvimento, tão repleta de tribulações e conflitos mediante
as sucessivas mudanças que ocorrem, e ainda, ser um projeto de vida para
substituir a falta de perspectiva profissional, fazendo do futuro, uma visão de
poucas possibilidades de crescimento em várias esferas, a exemplo da educação e
cultura. Este exercício de estimular a reflexão e trazer maior consciência, pode
ser feito por profissionais que atuam na área social e da saúde; por uma parcela
da população que já se encontra com boa experiência de vida e abre espaço para
discuti-las; professores que desenvolvam dinâmicas de grupos, e ofereçam canal
aberto para uma conversa de linguagem fácil e objetiva, sejam por meio de seus
centros comunitários, nos bairros onde moram, sejam pelas escolas.
Referências
ABERASTURY, Arminda e outros. Adolescência. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1983.
COSTA, Moacir. Sexualidade na adolescência: dilemas e crescimento. 11ª
edição. Porto Alegre: L&Pm, 1997.
DUARTE, Albertina. Gravidez na adolescência: ai como eu sofri por te amar,
2ª edição. Rio de Janeiro: Arte e Contos, 1997.
KALINA, Eduardo. Psicoterapia de adolescentes: teoria, prática e casos
clínicos. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
OSBORNE, Elsie L.e outros. Seu filho adolescente. Rio de Janeiro:
Imago, 1975.
SAYAO, Rosely. Sexo: prazer em conhecê-lo. Porto Alegre: Artes e
Ofícios, 1995.
TIBA, Içami. Sexo na adolescência. 9ª edição. São Paulo: Editora
Ática, 1996.
VARELLA, Drauzio. Gravidez na adolescência. São Paulo: Folha de São
Paulo. Ilustrada p. E10, 2000.
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