Psicoterapia e produção cultural: Psicoterapia também é cultura Afonso Lisboa da Fonseca affons@uol.com.br Laboratório Experimental de Psicologia Fenomenológico Existencial 1990
Idioma: português do Brasil Palavras-chave: Psicoterapia, cultura.
Um Príncipe Negro nas Ruas do Rio
Um Príncipe Negro nas Ruas do Rio
Obá 2º, amigo de Pedro 2º, atacou o racismo e defendeu a
igualdade
Eduardo Silva
Especial para a Folha
Dom Obá
2º d’África, ou melhor Cândido da Fonseca Galvão, como foi batizado, nasceu na
Vila de Lençóis, no sertão da Bahia, por volta de 1845.
Filho de
africanos forros, brasileiro de primeira geração, era, ao mesmo tempo, por
direito de sangue, príncipe africano, neto, ao que tudo indica, do poderoso
Aláafin Abiodun, o último soberano a manter unido o grande império de Oyo na
segunda metade do século 18.
Príncipe
guerreiro, Dom "Obá" (que quer dizer "rei" em ioruba) lutou na Guerra do
Paraguai (1865-70), de onde saiu oficial honorário do Exército Brasileiro, por
bravura. De volta ao país, fixou residência no Rio, onde sua posição social era,
no mínimo complexa. Tido pela sociedade de bem como um homem meio amalucado, uma
figura folclórica, era, ao mesmo tempo reverenciado como um príncipe real por
escravos, libertos e homens livres de cor.
Amigo
pessoal, uma espécie de protegido de Dom Pedro 2º, Dom Obá assumiu, nos momentos
decisivos do processo de abolição progressiva, o papel histórico, até então
insuspeito de elo entre as altas esferas do poder imperial e as massas populares
que emergiam das relações escravistas.
Sua figura
imponente de homem de 2m de altura, seus modos de soberano, como que captavam a
atenção dos contemporâneos, embora poucos estivessem realmente preparados para
acreditar no que viam. Um príncipe afro-baiano a perambular pelas ruas do velho
Rio, barba à moda de Henrique 4º, muito bem vestido em suas "finas roupas
pretas", como foi descrito, de fraque, cartola, luvas brancas, guarda-chuva,
bengala, ‘pince-nez’ de aro de ouro.
Ou, em
ocasiões mais especiais, muito ereto e importante em seu bem preservado uniforme
de alferes do Exército, com seus galões e dragonas douradas, sua espada à cinta,
seu chapéu armado com penachos coloridos, seu pacholismo admirável".
Dom Obá, para
ser breve, defendia uma visão alternativa da sociedade e do próprio processo
histórico brasileiro. Talvez pelo conteúdo mesmo de suas idéias, talvez por sua
linguagem crioula, colorida com expressivas pitadas de ioruba e mesmo latim, a
verdade é que seu discurso parecia opaco, incompreensível para a elite letrada
de então.
Escravos,
libertos e homens livres de cor, contudo, não apenas compartilhavam de suas
idéias, como contribuíam financeiramente para a publicação das mesmas e
reuniam-se nas "quitandas ou em família" para ler os artigos.
O que
defendia este homem e porque parecia interessar tanto seus leitores? Sendo um
príncipe, era Dom Obá, ao menos teoricamente, um monarquista acima dos partidos,
nem inteiramente conservador nem liberal, talvez por achá-los muito parecidos
uns com os outros, inspirados apenas por interesses materiais e casuísticos.
Por essas e
outras, tinha o príncipe posições políticas muito matizadas. "Por isso sou
conservador para conservar o que for bom e liberal para reprimir os assassinatos
que têm havido nesta atualidade a mando de certos potentosos", quer dizer
"potentados", pessoas muito influentes e poderosas.
O combate ao
racismo, a defesa da igualdade fundamental entre os homens, foi um dos pontos
mais importantes de seu pensamento e da prática, explicava, "por Deus mandar que
quando o varão tiver valor não se olharia a cor". Contrariava não apenas
concepções senhoriais, contrariava a própria ciência "fin de siècle" com suas
poderosas filosofias evolucionistas e etnocêntricas.
A
miscigenação brasileira, para o príncipe, nada tinha a ver com idéias
evolucionistas de inevitabilidade, como pensou Nina Rodrigues; ou desejabilidade,
como pensou Sílvio Romero, do "branqueamento". Tinha a ver, ao contrário, com um
sentimento de igualdade fundamental entre os homens. O príncipe orgulhava-se de
"preto ser" e, por não acreditar em superioridades, era "amigo dos brancos e
(de) todos os varões sensatos e conhecedores (...) que o valor não está na cor".
Saída do
mesmo universo cultural, uma carta de apoio ao príncipe lembra o absurdo da
discriminação, "visto da preta cor ser assemelhada todas as raças".
Outra carta,
em 1887, chega a formular um projeto de "enegrecimento", antes que de
"embranquecimento" da nação. Para o missivista, súdito de Dom Obá, a raçpa negra
já não era problema, mas a própria solução. Por isso apoiava a nomeação do
príncipe como embaixador plenipotenciário na África Ocidental, onde prestaria
relevantes serviços, "mandando transportar colonos africanos, para nunca mais
sofrer o Brasil decadência na sua exportação de fumo e café (...) e o açucar e o
algodâo nunca deixem de fertilizar o solo onde nascera o mesmo Príncipe Obá 2º
d’África, de Abiodon neto". Também aqui a discriminação é tida por absurda,
sendo, afinal, "cada qual como Deus o fez".
O próprio
príncipe publica, vez por outra, poesia abolicionista e antidiscriminatória.
"Não é defeito preto ser a cor/É triste pela inveja roubar-se o valor", reza uma
delas. Para ele, "o certo é que o Brasil deve deseistir (da) questão da cor,
pois que a questão é de valor e quando o varão tiver valor não se olhará a cor".
Na verdade,
para Dom Obá, não parece existir exatamente uma "questão racial", mas uma
questão de cultura, de informação, de refinamento social. Daí, muitas vezes, o
seu desconsolo com a pátria amada, "um país tão novo onde completamente não
reina a severa civilização colimada, porque ainda há quem apure a tolice (...)
do preconceito de cor".
O príncipe,
como seus seguidores, chega a formulações pioneiras também no sentido da criação
de uma estética autônoma, na linha do "black is beautiful" norte-americano dos
anos 60. Na verdade, segundo um de seus súditos, a raça negra não apenas era
linda, era "superior do que os mais finos brilhantes".
Às vezes
parece existir, no fundo, a idéia de superioridade negra. Não no sentido
biológico ou intelectual, parece, mas no sentido moral, em função da vivência
histórica de diáspora. Sua "humilde cor preta" era, assim, "cada qual como Deus,
Maria Santíssima, virgem, sempre virgem sem ser pesada aos cofres públicos, sem
ser assassina da humanidade". Tudo isso, concluía, "por preta ser a cor
invejada".
Eduardo Silva é Chefe do setor de história da
Fundação Casa de Rui Barbosa e autor de
"Prince of the People -- The Life and Times of a Brazilian Free Man of Colour",
editora Verso (Londres).
Publicado na Folha de São Paulo, 19.3.95. 6-8.
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PSICOTERAPIA E PRODUÇÃO CULTURAL
Psicoterapia Também é Cultura
1. Introdução.
2. A Psicoterapia. um Processo Psico-Socio-Corporal de Elaboração e
Reelaboração Cultural do Cliente e de Constituição Dele como um Produtor
Cultural Efetivo.
A definição da psicoterapia a partir de sua interioridade./ A
Psicoterapia, o terapeuta e o cliente como lugar e seres culturais
institucionais, constituídos anteriormente ao arcabouço conceitual de cada
escola e da própria psicoterapia./ A Anterioridade histórica e a
anterioridade funcional./ Introdução a uma concepção da psicoterapia da
perspectiva psico-socio antropológica da cultura./ A psicoterapia como lugar
institucional continente para um certo tipo de relação-processo, metódicos e
sistemáticos particulares entre o terapeuta e o cliente./Processo de
elaboração e re-elaboração psico-sócio-cultural do cliente./As escolas de
psicoterapia como tradições culturais particulares./ Redefinindo e
recontextualizando o estatuto e a concepção da psicoterapia./ Alguns pontos
de vista.
3. O Cliente, um Produtor Cultural em Crise, ao Nível Microssocial.de sua
Existência.
Quem é o cliente da Psicoterapia./ Respostas fáceis./ O dito cliente e
as implicações de uma definição a partir da clínica./ A psicologia e
psicoterapia fenomenológico existencial e o desmonte da concepção clínica do
cliente. / Socialização, cultura e crise./ Um produtor cultural em crise./
Crise cultural e crise existencial./ Produtor cultural em crise,
incompetente, e produtor cultural efetivo./ Efeitos Psicoterapêuticos./ O
cliente, culturativo e culturogênico./ O carecimento de elaboração e
re-elaboração cultural e os efeitos do processo psicoterapêutico.
4. O Psicoterapeuta.
A instituição psicoterapia, psicoterapeuta./A constituição cultural
pessoal do psicoterapeuta./ O terapeuta como um ser cultural da cultura de
sua escola de psicoterapia/ A formação do psicoterapeuta./ O psicoterapeuta:
particularidade e genericidade./ Não é o terapeuta quem elabora e re-elabora
o cliente culturalmente.
5. A Psicoterapia vista da Perspectiva Antropológica e Psicossocial de uma
Ecologia da(s) Cultura(s).
Multiplicidade e comunidade da(s) cultura(s), ecologia cultural./
Socialização, multiplicidade e comunidade de culturas: ecologia cultural./ A
perspectiva subjetiva da comunidade das culturas./ A psicoterapia vista da
perspectiva antropológica e psicossocial de uma ecologia cultural./ A
psicoterapia como processo de potencialização das capacidades culturativas e
culturogênicas da pessoa.
6. Conclusão.
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1. INTRODUÇÃO
Desde os seus primórdios, a prática da psicoterapia parece seguir um
desenvolvimento natural e particular, difundindo-se pelo mundo e fazendo parte
naturalmente da configuração de instituições das culturas modernas.
Já a sua teorização, e a teorização de suas escolas, da qual a prática
frequentemente se afasta em termos bastante significativos - as vezes de um modo
criativo, as vezes de um modo simplesmente ridículo, - parece viver num
permanente processo de crise, desde os seus primórdios. Os desenvolvimentos
teóricos, por seu turno, nem sempre, acompanham, de um modo consistente, nuances
efetivas dos desdobramentos da prática da psicoterapia, afastando-se destes,
frequentemente, também, de modos bastante alienados.
Por outro lado, tanto a teoria quanto a prática da psicoterapia indicam na
direção, e exigem a direção, de novos caminhos conceituais consistentes, mais
consonantes com as realidades efetivamente vividas, e de novas modalidades de
compreensão de seu arcabouço e processos, dos chamados cliente, e
psicoterapeuta, e dos ditos efeitos psicoterapêuticos. Direção esta
não contemplada adequadamente, ou frequentemente nem prevista, nos modelos
conceituais tradicionais da psicoterapia.
Dentre outras possibilidades, estas indicações, na verdade, parecem
denunciar, com vigor, o colapso e o potencial destrutivo de um certo paradigma
de concepção da psicoterapia - o paradigma clínico da psicoterapia, intensamente
criticado por alguns psicoterapeutas de raiz fenomenológico existencial -, e
apontam, de modo igualmente vigoroso, na direção de novos paradigmas.
Como já observei em outro lugar, não parece exagêro afirmar que a concepção
da psicoterapia passa por uma profunda crise paradigmática, nos modelos
descritos por Khun. Crise esta que se origina no, e enseja o, desenvolvimento de
novas possibilidades paradigmáticas.
A perspectiva sócio antropológica, ou psico-social da cultura, ou seja a
perspectiva psico-sócio-cultural de compreensão, e de explicação da psicoterapia,
do cliente, do psicoterapeuta, do processo, e dos efeitos do processo
psicoterapêutico, destaca-se neste sentido, de um modo cada vez mais evidente.
Acredito, na verdade, que, na compreensão da psicoterapia, de seus agentes,
processos, e na compreensão da produção de seus efeitos, caminhamos, cada vez
mais, no limite, no sentido de entender a riqueza da perspectiva psicossocial de
uma Ecologia da(s) Cultura(s). Perspectiva apenas esboçada, mas que se revela
potencialmente muito produtiva.
A reflexão que se constitui neste trabalho, busca partir de uma crítica dos
absurdos da concepção clínica da psicoterapia, da concepção clínica de seus
processos, agentes e resultados, e desenvolver esforços na direção de uma
compreensão deles a partir da perspectiva psico-sócio-antropológica da cultura.
2. Psicoterapia. Um Processo Psico-Sócial e Físico de Elaboração e
Re-elaboração Cultural do Cliente e de constituição dele como um Produtor
Cultural Efetivo.
Quando mergulhamos em nós mesmos, não decobrimos uma personalidade
autônoma, desvinculada dos momentos sociais, mas sim as marcas de sofrimento
do mundo alienado.
(T. Adorno, citado por M. Carone)
Normalmente, se concebe e se define a psicoterapia a partir de sua própria
interioridade. Ou seja, a partir do arcabouço conceitual de suas escolas,
uma vez, em particular, que a teorização da psicoterapia como atividade
genérica, é pobre e inconclusiva.
Isto significa dizer que a concepção e a compreensão não só da própria
psicoterapia, como a concepção e a compreensão do cliente, do terapeuta, dos
processos em que eles se engajam, e dos chamados resultados terapêuticos, dão-se
a partir desta interioridade. Ou seja, do interior da própria perspectiva
teórica e conceitual da psicoterapia e de suas escolas.
Ao lado da nossa significativa ignorância com relação à natureza efetiva da
chamada terapia, de seus agentes, processos e resultados, esta perspectiva de
definição e conceituação deles a partir da própria interioridade da psicoterapia
configura-se como uma perspectiva narcisista de teorização. E, na verdade, uma
incongruência lógica, na medida em que partes do sistema e elementos que estão
sendo definidos e conceituados são utilizados para definir e conceituar este
mesmo sistema.
Isto fez, e faz, parte das estratégias psico-sócio-culturais da psicoterapia,
em particular das suas estratégias de poder, e teve, como tal, os seus efeitos
produtivos. Na verdade, entretanto, a exclusividade deste tipo de mecanismo vai,
progressivamente, perdendo a sua criatividade, a sua produtividade, e
revelando-se abusiva, distorsiva e danosa.
É evidente que a psicoterapia carece, e carecerá sempre, de constituir um
autoconcepção de si e de seus agentes, processos e resultados, a partir de seu
próprio arcabouço conceitual. Mas, na medida em que a psicoterapia, seus agentes
processos e resultados, fazem parte da configuração de lugares e de processos da
cultura, torna-se cada vez mais delirante ater-se de um modo rígido a uma
autoconcepção narcisicamente constituída, a partir meramente da interioridade do
seu próprio arcabouço conceitual.
É evidente, na verdade, que a compreensão da psicoterapia, de seus agentes,
processos e resultados, a partir da perspectiva da psico-sócio-dinâmica da
cultura, um terreno praticamente inexplorado, só pode oferecer enormes
possibilidades produtivas. Em particular num momento em que os sistemas teóricos
das psicoterapias revelam-se cada vez mais insuficientes para dar conta de suas
especificidades e de seus desdobramentos concretos.
Precisamos levar consequentemente em conta, no desenvolvimento de nossos
sistemas conceituais, a especificidade da inserção e emergência da psicoterapia,
do psicoterapeuta, do cliente, dos processos em que eles se engajam, e dos
resultados desses processos, na, e da, configuração de lugares e de processos
sócio psíquicos da cultura. A sua inserção e emergência na e da cultura humana
genérica, e nas e das culturas específicas onde eles se constituem e se
desenvolvem como tais.
Em primeiro lugar, temos que considerar que tudo leva a crer que a atividade
que se constitui como psicoterapia, e que constitui o terapeuta e o
cliente, no que pesem as suas especificidades, é um tipo de atividade que
existiu e existe, sob outras formas, em outros segmentos sócio-culturais e em
outras configurações históricas. E mesmo em segmentos sócio culturais que
interpenetram-se com os segmentos nos quais a psicoterapia é vigente como um
recurso consensual para certas situações de vida.
Basta, por exemplo, considerar o papel e os efeitos psicossociais das
relações do Pai de Santo com os seus crentes, nos cultos Afro-Brasileiros, do
Padre e da confissão católicos, das atividades de Aconselhamento Pastoral dos
Ministros Protestantes, de Orientação Espiritual dos Rabinos, ou místicos (teria
o Hassid algo a ver com o papel do terapeuta?). Ou o papel de
socialização e ressocialização de certos líderes locais de comunidades rurais.
Evidentemente que a psicoterapia guarda uma especificidade cultural e
histórica toda sua com relação a estes processos e agentes sociais.
Especificidade que cada um deles igualmente preserva, respectivamente, em seus
próprios sistemas, práticas e processos. Não obstante, não é difícil identificar
elementos, condições, processos e resultados sócio-culturais e psicossociais
comuns a todos eles e à psicoterapia. De modo que podemos aprender muito
identificando e aprendendo sobre as famílias de processos
psico-sócio-culturais dos quais a psicoterapia faz parte, e entendendo a
pertinência da psicoterapia a estas famílias de processos psico-sócio-culturais,
e a sua natureza e especifidades enquanto tal, sem que isto signifique a perda
da identidade e das especificidades da psicoterapia, mas auxiliando-a, no
sentido da compreensão de sua emergência a partir dos processos da cultura, e no
sentido da superação de suas crises e da potencialização de seus
desenvolvimentos.
Permanecendo, todavia, no referencial da especificidade própria da
psicoterapia, é interessante, portanto, considerar a importância, normalmente
negligenciada, de suas determinações sócio-culturais e psicossociais, assim como
as determinações sócio-culturais e psicossociais de seus agentes, processos e
resultados.
Anteriormente, a qualquer postulação conceitual da psicoterapia, de seus
agentes, processos e resultados - a partir do arcabouço teórico de cada escola,
ou da própria teoria geral da psicoterapia -, eles existem, e desdobram-se, como
seres e como processos culturalmente constituídos, e culturalmente determinados.
Emergem a partir da psico-sócio dinâmica dos processos da cultura do sistema
social nos quais eles existem, anteriormente a qualquer postulação teórica ou
determinação técnica, e pertencem à dinâmica desses processos. A psicoterapia, o
psicoterapeuta, o cliente são institucionalmente constituídos, são instituições
das culturas das quais eles emergem e das quais eles fazem parte. Os processos
da psicoterapia, de seus efeitos e resultados, são sub-processos da psico-sócio
dinâmica dos processos das culturas pelas quais eles são produzidos como tais, e
às quais eles produzem. Os processos em que eles se engajam como processos
psicoterapêuticos, aí incluídos os chamados efeitos terapêuticos, são
processos, portanto, profundamente determinados, constituídos e modelados pelos
fatores culturais das culturas nas quais eles se inserem e das quais eles
emergem.
Quando consideramos, por exemplo, que o pensamento, e mesmo o sentimento, são
culturalmente condicionados, de um modo radical, em particular a partir da
linguagem, assim como os valores, as atitudes, os conhecimentos, os usos e
costumes, etc., podemos entender o quanto que estes processos são culturalmente
arraigados, anteriormente a qualquer forma de postulação ou de determinação
conceitual ou técnica deles.
De modo que o terapeuta e o cliente, e os processos em que eles se engajam,
estão determinados como, tais, em sua genericidade, anteriormente a sua
determinação ou postulação conceitual ou técnica, por parte do sistema teórico
ou técnico da psicoterapia.
Isto nos remete radicalmente a um piso mais básico de determinação da
psicoterapia, com relação aos seus sistemas teóricos. Que é o nível imanente de
suas determinações sócio-culturais e psicossociais, o nível imanente de
determinações sócio-culturais e psicossociais das determinações de seus agentes,
das relações deles, dos processos em que eles se engajam, e dos efeitos destes,
anteriores a qualquer das dimensões de sua teorização ou de suas pressuposições
e determinações técnicas.
Daí que carecemos de nos centrar na clarificação da especificidade e
importância deste nível psico-sócio-cultural de constituição da psicoterapia
como instituição, e de constituição de cada um de seus processos particulares,
agentes e resultados.
Vemos, nesta perspectiva, que a psicoterapia, num nível mais genérico, é o
espaço institucional continente para a ocorrência, e desdobramento dinâmico,
da relação particular entre dois agentes sociais diferenciados e
institucionalmente constituídos. O espaço institucional continente,
igualmente, para a ocorrência e desdobramento da relação particular entre
duas pessoas. A partir da dinâmica de interação de suas pessoalidades, em
suas singularidades, e como mediadoras estas da dinâmica de interação de suas
respectivas determinações institucionais e de suas respectivas constituições
sócio-culturais particulares.
Desta forma, a psicoterapia é um espaço institucional continente, metódico e
sistemático, para a ocorrência, desdobramento, e duração, de um certo tipo de
relação, e de certos tipos de processos psicossociais particulares, entre os
seus agentes, os chamados terapeuta e cliente, propiciados estes a partir deste
caráter métódico, sistemático, e do processo da duração, pontual e extensiva, de
sua relação.
Um espaço, acredito, pragmaticamente constituído e modelado pela
sócio-dinâmica da cultura, a partir de outros tipos de processos sócio-culturais,
na medida em que obedece a fins específicos. Quais sejam os de auxílio ao
cliente em situações ou padrões críticos de sua existência, e os de
potencialização de seus processos de crescimento, e de resolução de suas
questões existenciais.
Do ponto de vista psico-sócio-cultural do cliente, acredito que podemos dizer
que a psicoterapia constitui-se como um processo de elaboração e re-elaboração,
e de constituição dele como um produtor cultural efetivo, ao nível microssocial
de sua existência.
Neste sentido, é interessante considerar que as escolas de psicoterapia
decantam e condensam, cada uma delas, dimensões particulares das grandes
tradições culturais da humanidade, que articulam-se dinamicamente com fatores
das tradições culturais locais e atuais dos sistemas sócio culturais que
constituem e produzem o terapeuta e o cliente, como seres institucionais e como
pessoas
Desta forma, a psicoterapia está a exigir uma redefinição, e uma
recontextualização, de sua concepção, de sua teoria e de sua prática, no sentido
de uma integração efetiva nestas dos elementos mais radicais de suas
determinações psico-sócio-culturais, e das determinações e constituições
psico-sócio-culturais de seus agentes, efetivamente ativas ao longo das nuances
e sutilezas de seus processos e dos processos da produção de seus efeitos.
Desta perspectiva, é que podemos observar o anacronismo mastodôntico, e a
destrutividade, em termos culturais, e em termos existenciais - a partir, em
particular, da ética de uma filosofia da vida -, de uma concepção da
psicoterapia, do psicoterapeuta, do cliente, dos processos em que eles se
envolvem, e dos resultados destes, como pertinentes à esfera da clínica.
Um enfoque da psicoterapia, de seus agentes e processos, a partir da
perspectiva de suas determinações sócio-culturais e psicossociais mais concretas
e radicais, demanda e exige, -- do ponto de vista prático, do ponto de vista
teórico e do ponto de vista ético -- uma redefinição e uma recontextualização
dela, do cliente, do psicoterapeuta, dos processsos em que eles se engajam, e
dos resultados destes, consequentes com estas determinações.
Tal como entendemos, portanto, e tal como pode ser evidentemente entendido de
um perspectiva sócio-cultural, a psicoterapia, seus agentes, processos e
resultados, são especificamente do eixo da psico-sócio-dinâmica da cultura e da
produção cultural. E não da esfera da clínica. São do eixo, especificamente, da
produção cultural, e com o tal devem ser entendidos e tratados.
Neste sentido, gostariamos de enfatizar alguns pontos que nos parecem
importantes e relacionamos a seguir:
1. O cliente de psicoterapia caracteriza-se e define-se por ser um
produtor cultural em crise, ao nível microssocial de sua existência e de
sua cotidianidade.
2. A psicoterapia é, especificamente, um processo de elaboração e
re-elaboração psico- sócio-cultural, no qual, ou com a ajuda do qual, o
cliente, a partir de sua condição, pode constituir-se e reconstituir-se como
um produtor cultural efetivo, ao nível microssocial de sua existência
e de sua vida cotidiana.
3. O psicoterapeuta é um parceiro, em termos pessoais e em termos
institucionalmente específicos e definidos, de co-laboração no
processo de auto-elaboração e re-elaboração cultural do cliente, ao longo de
sua relação metódica e sistemática com ele, no âmbito do espaço
institucional da psicoterapia. Oferece-se à relação metódica e sistemática
com o cliente, a partir de seu status e condição institucional de "psicoterapeuta",
em um primeiro nível, e a partir de sua constituição, sedimentação,
ressonâncias e dominâncias culturais particulares, elaboradas ao longo de
seu desenvolvimento, e em processo de devir.
Em seus níveis mais básicos, a psicoterapia configura-se como a
interação psico-sócio-dinâmica entre o cliente e o psicoterapeuta, como
pessoas, a partir de suas constituições sócio-culturais particulares, e
a partir de suas definições institucionais.
3. O Cliente, um Produtor Cultural em Crise, ao Nível Microssocial de sua
Existência.
"Veja o meu caso. Eu nasci filho de índia com um paulista. Meu nome
índio é guarani pela amizade de minha mãe com uma gurani. Meu lado índio só
pensa em fogo, água e mato. Meu lado branco vai morrer sem entender o lado
índio."
(João Maria Tapixi Rodrigues, índio Caingagues. Folha de São Paulo
08.7.96. p. 1-8.).
QUEM É O CLIENTE DA PSICOTERAPIA? IMPLICAÇÕES DE UMA DEFINIÇÃO A PARTIR DA
PERSPECTIVA DA CLÍNICA.
Quem é o cliente de psicoterapia? O que o constitui como tal?
A resposta parece um tanto quanto óbvia, ainda que traia sempre um certo
automatismo mecanicista, apressado e suspeito. Na verdade, a suspeição e a
inconsistência crescem sempre, à medida em que buscamos superar esta "obviedade"
automática e mecânica.
Num nível mais primitivo, mas bastante arraigado e pertinaz, a resposta tem
sido tradicionalmente oferecida a partir da perspectiva da clínica, ainda
que, frequentemente, de um modo mais ou menos encabulado e/ou dissimulado, mais
modernamente. Isto para não falarmos de respostas oferecidas a partir de uma
perspectiva religiosa, ou para-religiosa, que já se situa, pelo menos
historicamente, fora do âmbito específico da psicoterapia.
Mais recentemente, surgiram respostas para a questão sobre o que é o cliente
da psicoterapia, sobre o que o constitui como tal, a partir de uma perspectiva
fenomenológico-existencial. É, sem dúvida, uma mudança qualitativa apreciável,
este salto, de uma resposta a partir da equívoca e danosa perspectiva dogmática
da clínica, para um tentativa de resposta a partir de uma perspectiva
fenomenológico-existencial.
Esta perspectiva existencial, entretanto, tende a ser insuficiente, e até a
distorcer-se, na medida em que não se apreende nela, e não se considera
adequadamente, a importância especifica da dimensão sócio-cultural da
existência, e, por implicação, a importância específica da dimensão
especificamente sócio-cultural da psicoterapia, de seus agentes, processos e
resultados.E o cliente é, reificadamente, entendido como uma existência
monadicamente individualizada.
Quanto à equívoca e danosa perspectiva reducionista da concepção clínica do
cliente da psicoterapia, e da própria psicoterapia, sabemos que o tempo desevela
o seu absurdo, apesar de sua persistência.
Constituir o drama, as dificuldades existenciais do cliente, e as implicações
psicológicas e emocionais destes, numa questão de clínica, apesar de
usual, não é uma operação isenta do ponto de vista ético de uma filosofia da
vida. Sabemos, hoje em dia, que trata-se de uma violenta operação de destruição,
ainda que esta destruição se situe, inicialmente, no nível do que Berger
e Luckmann primorosamente chamam de aniquilação conceitual.
Inicialmente, apenas, é bom que se frise, porque esta conversão, este
momento inicial de aniquilação conceitual, é, na verdade, o ponto de partida de
todo um processo que, partindo do conceitual, desdobrar-se-á como um processo de
destruição psicológica, psicossocial, social e, no seu limite, de destruição
física, do chamado cliente. Em particular, por que autoriza e resulta no
desencadeamento, por parte dos sistemas sociais do qual ele faz parte, de
comportamentos destrutivos, em todos estes níveis, com relação a ele. Além de
configurar-se basicamente como um golpe violentíssimo em sua auto-imagem, em sua
autoconfiança, em sua esperança e poderes de superação de suas críticas
situações limites, ao lado de todo um processo degenerativo de sua imagem
social.
Todo o espectro deste processo destrutivo é solidário e integrado em si, e
solidário com a rotineira operação de conversão do drama, das questões e
dificuldades existenciais do cliente, e suas implicações, em questões
clínicas.
Esta concepção do cliente a partir da clínica, ainda que pertinaz, revela
cada vez mais o seu absurdo, como dissemos, absurdo que é explicitado,
inclusive, por muitos Psiquiatras lúcidos. De modo que, mesmo resistente, está
em crise, e aponta o fim de seu tempo.
Desde há algum tempo já, a psicologia e a psicoterapia fenomenológico
existencial, através dos trabalhos de profissionais como Laing, Cooper, Rogers,
Perls, Moreno, May, Bateson, Maslow, Binswanger, e outros, tem se contraposto a
esta perspectiva de concepção do cliente a partir da perspectiva da clínica. O
trabalho deles é brilhante e revolucionário. Colaborou significativamente no
sentido do desmonte da concepção clínica em psicoterapia, e está, ainda, por
oferecer os seus melhores frutos e resultados. Exige, todavia, sequência e
consequência, das novas gerações. Diante, em particular, dos desafios que suas
implicações suscintam.
Mesmo nesta perspectiva da psicologia e da psicoterapia fenomenológico
existencial, entretanto, a perspectiva clínica ainda perdura frequentemente,
ainda que eventualmente de formas dissimuladas. Tanto é que chega-se a cogitar,
no seu âmbito, a recuperação do diagnóstico como instrumento da
psicoterapia, postulando-se, desta forma, uma retroação a momentos seus
superados desde os anos cinquenta e sessenta.
Isto parece ocorrer porque não radicalizamos no sentido das conquistas
efetivamente realizadas pela psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial, e pela revolução operada pelo existencialismo e pela fenomenologia,
no âmbito das ciências humanas e da cultura, desde Nietzsche.
Em primeiríssimo lugar, esta radicalização parece significar o abandono do
"porto seguro" da clínica, em termos da chamada psicoterapia, e o navegar no
sentido de outras perspectivas e de clarificações de sua efetiva natureza, a
partir de uma concepção ampla e honesta de sua prática concreta.
UM PRODUTOR CULTURAL EM CRISE. CRISE CULTURAL, CRISE EXISTENCIAL.
Um desafio importante neste sentido - no sentido desta sequência e
consequência do trabalho da psicologia e da psicoterapia fenomenológico
existencial, no sentido da superação de uma concepção clínica da
psicoterapia, de seus processos e resultados, do cliente, e do terapeuta - diz
respeito, a meu ver, a um aprofundamento desta compreensão deles a partir da
perspectiva da cultura e da produção cultural. Desde as dimensões
mais genéricas da cultura, até as suas dimensões mais específicas e
particulares.
Quando falamos de Produção Cultural, remetemo-nos, normalmente,
ao nível dos objetos, ou ao nível da arte, ou ao nível dos grandes sistemas de
objetivação da cultura. Nós psicoterapeutas, entretanto, e em particular, não
podemos negligenciar, ou deixar de valorizar, o fato de que um dos níveis mais
fundamentais da produção cultural é, especificamente, o nível da
"produção" das pessoas. Ou seja, é exatamente o nível da produção das
pessoas como produtos e produtores culturais, o nível da produção da pessoa como
produto e como produtor cultural.
Este nível da produção cultural parece ser um nível fundamental, não só para
a compreensão da cultura, como para a compreensão, em especial, da pessoa, e
para a compreensão da psicoterapia, de sua prática, de seus agentes, processos e
resultados.
Numa perspectiva muito importante, este processo de constituição da pessoa
como produto e produtora cultural, os acidentes, dificuldades, distorções
particulares e genéricas dele, parecem responder por dimensões importantes do
processo de constituição do cliente como tal. Em particular, quando consideramos
o crescimento e o desenvolvimento cultural da pessoa no âmbito das interssecções,
das interfaces, de configurações de determinações culturais tensionadas,
conflitivas, contraditórias e antinômicas, como frequentemente ocorre.
Sabemos que a socialização é um processo que tem as suas dificuldades,
conflitos e acidentes para a pessoa particular. Dificuldades, conflitos e
acidentes que, não raro, configuram-se como críticos, ou constituem-se como
cronicamente críticos e estruturais, ou como áreas estrutural e cronicamente
críticas, da constituição da pessoa e de seu campo de relações.
Em especial, quando consideramos que os sistemas sociais, em particular os
sistemas sociais urbanos, constituem-se como articulação, interfaces e
distinções, de múltiplas determinações culturais significativas, representantes,
cada um delas, de diferentes configurações sócio culturais, definidas a partir
de distintas determinações históricas, econômicas, étnicas, nacionais,
regionais, religiosas, raciais, políticas, etc., e que incidem confluentemente
sobreo processo de formação e de desenvolvimento da pessoa pareticular.
É verdade que toda esta diversidade articula-se numa, e constitui uma,
‘cultura de interface’ e generalizadora, a que podemos nos referir como cultura
urbana, cultura burguesa, modernidade... Esta, entretanto, não extingue, pelo
menos de imediato, e no caso de algumas jamais, o peso e o conflito das
determinações culturais particulares. Inclusive, e em especial, o conflito das
culturas particulares com esta mesma ‘cultura de interface’.
De modo que as pessoas têm que socializar-se a partir de necessidades e
demandas constituídas por núcleos sócio-culturais distintos, e em conflito,
eventualmente conflito grave, desde a mais tenra infância. Aspirando, por outro
lado, a constituir-se, igualmente, como ser genérico da cultura de interface que
medeia as relações do conjunto da comunidade de sistemas culturais de que
participa. O que significa, frequentemente, distanciar-se de suas determinações
culturais mais ancestrais. Processo que, por si só, já gera inúmeras tensões,
acidentes e conflitos significativos.
No processo de seu desenvolvimento, o indivíduo desloca-se, frequentemente,
da cultura comunitária particular do seus sistema sócio-cultural de
origem, na direção da cultura individualista do mundo burguês. Só este
processo representa uma série de trans-form-ações sócio culturais que
constituem-no facilmente como cliente de psicoterapia, carente de constituir-se
e re-constituir-se como um produtor cultural efetivo, no âmbito de novas
configurações culturais, a partir de suas heranças culturais, e dos repertórios
e desafios que os novos contextos sócio-cultural lhe impôem.
Por outro lado, a socialização do indivíduo sofre da particularização de
todas as tensões e conflitos, contradições, antinomias da situação,
transformações sócio-históricas, e devires do sistema socio-cultural particular
de seus pais e avós, de onde advém.
A socialização e o desenvolvimento da pessoa nessas condições é mais ou menos
problemática. Mas é sempre problemática e difícil.
O desenvolvimento cultural da pessoa, que lhe permitirá constituir-se no seu
meio original, e/ou em outros, e efetivar as suas capacidades para manipulá-los,
e transformá-los, no sentido da criação das condições para a satisfação e
produção de suas necessidades, o desenvolvimento da pessoa, pode ser
significativamente perturbado e distorcido, a ponto de constituí-lo, no limite,
como um produtor cultural em crise. Globalmente em sua existência,
ou em aspectos particulares desta.
Isto significa dizer que quedam-se prejudicadas para ele as suas condições
culturais, e de produção cultural, indissociáveis de seu próprio crescimento
pessoal. Queda-se prejudicada a sua capacidade e as suas possibilidades de
apropriar-se e de utilizar, de um modo efetivo, as objetivações cotidianas, as
línguagens, os objetos, os usos, e as objetivações não cotidianas - em suas
especificidades e sutilezas próprias - da comunidade de sistemas culturais em
que sobrevive e vive cotidianamente. Onde atualiza as suas capacidades e
sentidos, no processo de constituição dos objetos de satisfação de suas
necessidades, e de produção e reprodução delas. Queda-se prejudicada, no limite,
a sua capacidade de auto-criação, de auto-recriação e de crescimento, no
processo de suas relações com o seu meio, processo de criação e de recriação
dele.
É esta condição cultural de crise, mais ou menos abrangente, mais ou menos
crônica, é a pessoa como um produtor cultural em crise, que a constitui -
de uma perspectiva cultural -, como cliente de psicoterapia.. Que constitui,
como tal, o cliente da psicoterapia.
Esta condição de crise cultural, mais ou menos abrangente e crônica, ou
reagudizada em momentos ou questões decisivos da vida da pessoa, tem toda a sua
implicação na vida dela como crise existencial, mais ou menos crônica -
ou mais ou menos reagudizada periodicamente -, com todo o seu séquito de
sintomas de ansiedade ou de depressão, típicos do cliente, em função dos perigos
e frustrações que ela potencializa na vida dele,e com as dificuldades que
representa para a sua auto-imagem, para o seu processo de ajustamento criativo
em seu meio, e para a sua realização e gratificação pessoal.
O processo da psicoterapia partirá desta condição do cliente de insatisfação,
de frustação, de sensação de perigo, de impotência, de falência de suas
capacidades para manipular ou para movimentar-se em seu mundo, de ansiedade e/ou
depressão mais ou menos crônica. E direcionar-se-á, progressivamente, entretanto
-, nos casos bem sucedidos -, na direção de um processo micro-sócio-cultural,
específico, siatemático e metódico, de interação entre ele e o terapeuta - como
instituições sociais e como pessoas, seres culturais -, no seio desta
instituição cultural da psicoterapia. Processo que terminará por configurar-se,
na prática, como fator relevante de um processo de elaboração e de re-elaboração
cultural do cliente, no sentido da constituição e reconstituição dele como um
produtor cultural efetivo, no âmbito da configuração cultural em que ele
sobrevive e vive.
Existem os casos que a condição do cliente não tem uma gênese tão típica e
evidente em tensões, dificuldades e conflitos culturais. Estes casos,
entretanto, têm sempre, também, os fatores culturais como determinantes básicos.
Seja do processo de sua constituição, seja dos processos de interação entre o
cliente e o terapeuta, seja dos resultados de que o cliente carece. São estes,
por exemplo, os casos da ausência de, ou de conflito grave com, um dos pais no
desenvolvimento da pessoa, os casos de perda abrupta de pessoa significativa, os
casos de seprações, de mutilações físicas, de morte iminente, e outros, que
demandam e exigem sempre todo um processo elaboração e re-elaboração cultural de
si por parte do cliente
Assim sendo, um produtor cultural em crise, incompetente, a seu critério,
ao nível micro-social de sua existência, socializou-se/foi socializado de um
modo tal que tende a ser incapaz, impotente, inábil, a seu próprio critério,
para a criação, em sua vida cotidiana, das condições para a auto-atualização de
suas potencialidades, capacidades e sentidos, e para a satisfação e elaboração
multifacetária de suas necessidades e dos objetos de satisfação destas.
Isto o induz a um estado crônico de frustração, perigo e impotência. a uma
constante exposição improdutiva ao risco de fracasso nas atividades de sua
existência, em especial as mais críticas. A um embotamento de sua
potencialidades, capacidades e sentidos, e a um embotamento do processo de
elaboração, reelaboração de suas necessidades e dos objetos de satistação delas.
A duração desta condição leva a pessoa particular a um estado de crise
existencial mais ou menos crônica, reagudizada eventual ou periodicamente - em
particular quando ela se vê obrigada a defrontar-se com situações críticas de
vida, que exigem de suas capacidades, necessidades, potenciais e sentidos,
respostas criativamente produtivas.
A condição crônica de frustração, de perigo, de impotência, de incapacidade
para crescer, ou a reagudização desta condição, em situações problemáticas
particulares, termina por levar a pessoa à psicoterapia, e constituí-la como
como cliente, sob o influxo forte de uma experiência de insatisfação, ou,
frequentemente, sob a impressão de uma falência de suas condições existenciais,
ou, imersa simplesmente em uma crise aguda de ansiedade, ou de depressão,
revestida das formas de uma crise existencial.
EFEITOS PSICOTERAPÊUTICOS
Os chamados efeitos psicoterapêuticos desenvolver-se-ão sempre e
traduzir-se-ão sempre em termos psicossociais, de cunho cultural mais ou menos
marcado, mas sempre de cunho cultural. Dirão respeito às transformações ao nível
dos conhecimentos significativos do cliente, e de sua capacidade de aprender
significativamente na cotidianidade de sua existência. Dirão respeito às
transformações de seus valores, e das configurações de atitudes deles
decorrentes. Dirão respeito às transformações de sua capacidade de utilização de
objetos e recursos de seu mundo, e de desenvolvimento de novas modalidades de
habilidades, mais sintônicas com as suas necessidades atuais. Dirão respeito às
transformações de suas linguagens e ao desenvolvimento criativo delas. Ao
desenvolvimento de sua capacidade para o desfrute e vivência de seu corpo, e
para a potencialização de suas ações e possibilidades corporais. Dirão respeito
a suas capacidades no sentido da apropriação e da recriação da esfera das
objetivações cotidianas de sua vida, e da sua relação com a esfera das
objetivações não cotidianas.
A relação com o psicoterapeuta e o processo da terapia configuram-se,
progressivamete, como um momento relevante desta reciclagem, deste processo de
elaboração e re-elaboração cultural do cliente. Momento que o cliente vivenciará
periodica e metodicamente, em sua cotidianidade, de um modo idealmente intenso.
O processo da terapia constitui-se, desta forma, como uma dimensão importante
de todo o processo de auto-criação e re-criação cultural do cliente. Vale dizer:
de todo um processo de potencialização e de efetivação de suas capacidades de
criação e de recriação de si próprio e de seu mundo, a partir dos seus recursos
culturais e dos recursos culturais nele disponíveis. E a partir, em especial, de
sua capacidades - capacidades culturativas e culturogênicas -, de suas
necessidades e sentidos.
Porque, efetivamente, não é, em momento algum, o terapeuta
quem elabora e re-elabora o cliente culturalmente, ao modo da relação
de um sujeito com um objeto.
Em primeiro lugar, é necessário considerar que esta relação entre o terapeuta
e o cliente, é intersubjetiva e fenomenal, é transacional. Ao psicoterapeuta
cumpre assimilar a constatação de Husserl e respeitar a alteridade autônoma da
pessoa do cliente: "O outro é um foco autônomo de produção de sentido". A
relação entre o terapeuta e o cliente está, em particular em sua globalidade,
sentidos íntimos e interêsses significativos para o cliente, fora do controle do
terapeuta. As necessidades mais básicas do cliente com relação ao processo
psicoterapêutico, os sentidos e os efeitos para o cliente desse processo estão
fora do contrôle consciente e voluntário do terapeuta e, frequentemente, dele
próprio, cliente.
Daí a necessidade de uma relativização da importância do nível técnico da
psicoterapia, do nível de aplicação técnica de uma certa abordagem, por parte do
terapeuta, se quisermos valorizar estes níveis mais básicos da relação
psicoterapêutica. E a necessidade de uma entrega ao fluxo da espontaneidade da
relação, e da entrega do terapeuta ao fluxo de sua própria espontaneidade
criativa, no âmbito de sua relação com o cliente.
cumpre observar, que quanto maiores os carecimentos do cliente de um processo
de elaboração e re-elaboração cultural, maiores as possibilidades produtivas do
processo psicoterapêutico. Assegurada, evidentemente, a competência necessária
do terapeuta para participar desse processo.
4. O Psicoterapeuta.
"Ninguém encontrará pessoas
estudando-as como se fossem apenas objetos".
(R D Laing)
As psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais realizaram um
progresso marcante quando desistiram de pensar o psicoterapeuta como um
especialista que intervém sobre um paciente, e modifica-o desta ou daquela
forma, e passaram a pensá-lo como uma "pessoa" que interage com outra pessoa. E
que as suas habilidades terapêuticas têm muito mais a ver com qualidades humanas
do que com qualidades técnicas. Acredito que não seria nada exagerado marcar
este ponto como um ponto de transição, um dos vários, talvez, entre a
pré-história e a história da psicoterapia e da psicologia.
Esta perspectiva, ainda que tenha o mérito de considerar e valorizar a
singularidade absoluta da pessoa do terapeuta - e da pessoa do cliente -, tende,
frequentemente, a perder a sua efetividade e a distorcer-se, na medida em que a
"pessoa" em questão, e, por implicação, a sua relção, são reificadas, são
restritas a sua individualidade empírica, e amputadas de suas determinações não
empíricas, em particular de suas determinações culturais, sejam elas as suas
determinações culturais genéricas, ou as suas determinações culturais mais
particulares.
Esta amputação e distorção, talvez em função da influência de certas
particularidades pragmático empiristas da Cultura Norte Americana, tende a ser
até obsessiva em certas áreas da Abordagem Centrada na Pessoa, que assumem que a
mera manifestação da condição da terapêutica da Consideração Positiva
Incondicional, e de outras Condições Terapêuticas, seriam suficientes
no trato com o cliente.
Lembro de Anh Tothi, uma simpática senhora, psicoterapeuta centrada na
pessoa, Vietnamita, da Cidade de Ho Chi Minh, amiga pessoal de Carl Rogers, no
Forum Internacional da ACP, em Terschelling, na Holanda, em 1992. Discutíamos,
num grupo, as questões culturais da psicoterapia e da psicologia, e eu dizia que
considerava que cerca de setenta e cinco por cento dos processos e
resultados da psicoterapia deviam-se a processos sócio culturais básicos,
decorrentes de fatores imanentes às pessoas do terapeuta e do cliente, e à
relação psico-sócio-cultural que se desencadeava entre eles, a partir destes
fatores, e que não estavam tematizados pelas teorias e métodos das escolas de
psicoterapia.
Junto com alguns outros colegas, em particular um colega Britânico, Londrino,
Ahn, delicadamente, como é o estilo tradicional dos Vietnamitas, considerou
exagerada a cifra da minha estimativa. "‘Setenta e cinco por cento’ era muito".
Continuei expondo algumas idéias e pontos de vista, e a discussão rolando. Já
próximo do final, Ahn pediu a palavra e disse algo mais ou menos assim:
"considerando as características de meu povo, a nossa fisionomia, o nosso jeito
de pensar e agir, eu acho, de fato, que setenta e cinco por cento é pouco, na
verdade podemos considerar, oitenta e cinco, noventa e cinco por cento".
Aquilo me fez muito bem...
O PSICOTERAPEUTA COMO INSTIUIÇÃO
Acredito que ser fundamental considerar, na reflexão sobre a psicoterapia, a
condição básica do psicoterapeuta e da psicoterapia como instituições
sócio-culturais, e a importância desta condição na emergência e desdobramentos e
produção de efeitos do processo psicoterapêutico. Em particular, a importância,
para o cliente, do relacionamento com este nível institucional do processo.
Sabemos da importância da boa estruturação desta dimensão da relação
institucional entre o terapeuta e o cliente, para o bom andamento do processo
terapêutico. O terapeuta não se relaciona com o cliente apenas como pessoa.
O cliente o procura, e atrela-se numa relação com ele, a partir de uma condição
institucional sua: a partir de seus credenciamentos institucionais, de sua
reputação no sistema social em que ambos vivem, etc. Estabelece com ele um
vínculo profissional, dentro dos limites do qual pode desenvolver-se a relação
psicoterapeutica entre eles, inclusive os níveis mais pessoais desta relação.
Este vínculo institucional profissional protege o terapeuta de invasões a sua
privacidade por parte dos clientes, e garante as condições básicas do proccesso
da terapia, ao mesmo tempo em que protege a privacidade do cliente de invasões
por parte do terapeuta. Estas dimensões deste vínculo institucional entre
psicoterapeuta e o cliente são normalmente considerados como exteriores ao
processo da terapia propriamente dita. Não podemos deixar de considerar.
entretanto, a importância deste vínculo institucional entre o terapeuta e o
cliente, a partir da condição institucional do terapeuta, na produção de certos
efeitos psicodinâmicos importantes, reconhecíveis normalmente como do âmbito dos
efeitos psicoterapêuticos, ou de pré-requisitos destes.
Basta considerar, por exemplo, que certos clientes buscam a psicoterapia por
que sentem-se, ou efetivamente estão sendo, progressivamente excluídos ou
expulsos da ordem social da cultura em que viviem. A psicoterapia, nesses casos,
é um lugar da ordem social da cultura que, por príncipio, especializa-se
em receber e aceitar esta pessoa, no seu seio, segundo os princípios de uma
tolerância anômala para os padrões vigentes da ordem social da cultura da
qual a pessoa sente-se, ou efetivamente está, sendo expulsa. De modo que,
através da psicoterapia, a pessoa obtém uma vinculação de emergência,
digamos, à ordem social da cultura. O psicoterapeuta, frequentemente, é esta
figura especializada da cultura, da configuração das instituições - não só
tecnicamente, mas institucionalmente, filosoficamente, psicossocialmente -, que
busca a constituição de um vínculo social institucional com a pessoa -- no caso
cliente -, quando, nessas condições, ela sente fracassarem progressivamente as
suas outras vinculações, e a sua própria capacidade de vincular-se. Quantas
pessoas, clientes, não tiveram, e têm, neste tipo de vinculação a sua
possibilidade circunstancial mais significativa de pertinência social, como
alternativa ao mergulho no precipício da exclusão.
A partir desta vinculação, um tal cliente pode potencializar-se para
reorganizar progressivamente os seus vínculos sociais, e mesmo para reorganizar
a sua capacidade de constituí-los. Não raro, depois de um longo período de
suporte por este tipo de vinculação.
Não podemos negar a importância das qualidades e características pessoais do
psicoterapeuta no desenvolvimento da vinculaçãodesta ordem. Mas a especificidade
e o impacto psicológicos de sua condição institucional, e a sua habilidade de
lidar com esta especificidade e com este impacto, e de usá-los, são fatores
fundamentais no desenvolvimento de um processo produtivo.
São fatores do processo psicoterapêutico que ressaltam a importância da
condição institucional da psicoterapia e do papel do terapeuta, e de sua
habilidade de manejá-los, no desenvolvimento de um processo psicoterapêutico
produtivo.
Não advêm originalmente de uma habilidade técnica específica do terapeuta,
mas especificamente de sua condição institucional, e dos efeitos psicossociais
desta condição.
A CONSTITUIÇÃO CULTURAL PESSOAL DO TERAPEUTA.
Por outro lado, sabemos que esta dimensão institucional é apenas uma das
dimensões do ser do terapeuta enquanto tal. Indissociável desta sua condição
institucional, desdobra-se dinamicamente, na sua relação com o cliente, a sua
pessoalidade. Fonte, importante e fundamental, de criatividade e de
originalidade no processo psicoterapêutico. Capacidade de aceitação e de
compreensão do cliente em sua singularidade dinâmica, na singularidade de seu
momento de vida, e na atualidade pontual de seu momento vivido.
Somos ingênuos, todavia, quando pensamos que esta pessoalidade do terapeuta
restringe-se a sua individualidade empírica. E não apreendemos, esquecemos ou
negamos, que esta pessoalidade , assim como a pessoalidade do cliente,
constitui-se indissociavelmente como particularização, também, de fatores
culturais. Fatores que, ainda que assim particularizados, transcendem ao nível
da pessoalidade, uma vez que radicam nos sistemas sócio culturais de que o
terapeuta, e o cliente participam.
De modo que não podemos deixar de entender o psicoterapeuta, em sua
pessoalidade, como integração dinâmica, também, de fatores individuais e de
fatores transindividuais. Fatores transindividuais estes constituídos pelos
sistemas sócio culturais de que ele participa e pela dinâmica dos devires
destes.
A relação do psicoterapeuta com o cliente envolve, pois, um nível
institucional e um nível pessoal. Configurando-se este nível pessoal a partir da
relação interpessoal particular entre o terpeuta e o cliente.
Nesta relação, além de suas individualidades, interagem dinamicamente os
fatores transindividuais da pessoalidade do terapeuta com os respectivos fatores
da pessoalidade do cliente. Acredito que estes níveis da interação entre o
terapeuta e o cliente, em sua esfera especificamente psicossocial, respondem
pela constituição de níveis importantes, e dos mais sutis e produtivos, do que
entendemos como efeitos psicoterapêuticos.
Desta maneira, não podemos deixar de entender que a constituição cultural
pessoal do terapeuta, em relação à mesma constituição do cliente, é um fator
fundamental do processo psicoterapêutico e da determinação de seus efeitos.
O TERAPEUTA COMO UM SER DA CULTURA DE SUA ESCOLA DE PSICOTERAPIA.
Ao considerarmos a constituição cultural do psicoterapeuta, é interessante
levarmos em conta que esta constituição tem uma particularidade. O terapeuta foi
particular e diferenciadamente aculturado na "cultura" de sua escola de
psicoterapia.
As escolas de psicoterapia concentram perspectivas e posturas particulares
das grandes tradições culturais da humanidade.
Cada uma delas constitui-se especificamente a partir desta concentração de
perspectivas culturais, como um certa tradição cultural, como uma certa
pespectiva cutural.
Assim, ao lado de sua constituição cultural, desenvolvida ao longo de sua
vida, e certamente por causa dela, o terapeuta integra e elabora em si as
perspectivas e posturas "culturais" de uma certa escola de psicoterapia,
constituídas nele a partir do processo de sua formação como psicoterapeuta. E
orienta, a partir dela, o seu desempenho profissional.
As tradições culturais da história da humanidade que se concentram nas
perspectivas e posturas básicas da Psicanálise não são as mesmas que
concentram-se nas perspectivas e posturas básicas das linhas fenomenológico
existenciais de psicologia e de psicoterapia, da mesma forma que não o são as
perspectivas e posturas das linhas comportamentais.
Vive la diférance.
Acredito que não podemos considerar estas questões de um ponto de vista
maniqueísta, mas certamente temos muito a lucrar com uma sociologia e com um
estudo antropológico e filosófico, inclusive axiológico, dos fundamentos das
várias e de cada uma das escolas de psicoterapia.
A FORMAÇÃO DO PSICOTERAPEUTA
A serem consideradas estas perspectivas com relação à psicoterapia e ao
psicoterapeuta, é interessante refletir adequadamente sobre o que é,
efetivamente, a formação deste. Sobre quais são as implicações dessas
perspectivas para a concepção e para a prática da formação do psicoterapeuta.
Em primeiro lugar, é necessário considerar que fatores importantes de sua
formação, fatores de uma importância decisiva na constituição dos processos
psicoterapêuticos nos quais ele se envolverá, ele os obtém e desenvolve anterior
e independentemente de sua formação especializada.
Anteriormente à sua frequência a qualquer curso especializado de formação em
psicoterapia, anteriormente ao seu curso de psicologia ou de medicina. São os
fatores ligados à aquisição e ao desenvolvimento de sua constituição cultural
pessoal particular. Os fatores ligados ao seu desenvolvimento como pessoa, ser
cultural. São fatores que haverão de interagir dinamicamente com as
constituições culturais de seus clientes, anteriormente e a revelia de qualquer
pressuposto ou determinação técnica ou teórica, determinando fundamentalmente os
seus rumos e os seus resultados.
Estes fatores, portanto, carecem de ser considerados nos programas formais e
de desenvolvimento de psicoterapeutas. Carecem de uma consideração que contemple
a complexidade, a importância, a sutileza e a delicadeza deles. Precisamos,
inclusive, desenvolver posturas e critérios éticos e filosóficos para lidar com
estes fatores na formação dos psicoterapeutas. Em particular porque as múltiplas
formações e configurações culturais dos terapeutas são importantes, em sua
multiplicidade e especificidades particulares, como possibilidades de
ressonância e de articulações produtivas com as múltipls formações culturais dos
clientes, em sua diversidade e em suas especificidades particulares.
Por outro lado, os programas formais de formação de psicoterapeutas carecem
de novas modalidades de compreensão de sua natureza. Modalidades que superem a
uma compreensão deles meramente como programas de formação técnica e teórica, ou
mesmo filosófica, para entendê-los, também, como programas de aculturação e de
desenvolvimento dos formandos nas várias perspectivas, posturas, valores,
atitudes, conhecimentos e técnicas da cultura da escola de psicoterapia em
questão. Em particular, os programas carecem de ser entendidos, também, numa
perspectiva psico-sócio-dinâmica da interação entre seres culturais formados ou
em processo de formação, formandos e professores, submetidos aos fluxos e
refluxos dos devires de suas determinações sócio culturais.
TERAPEUTA, PARTICULARIDADE CULTURAL E GENERICIDADE HUMANA
Uma das capacidades mais fundamentais de um psicoterapeuta, em particular
diante do acima exposto, é a sua capacidade - a par da afirmação da configuração
de sua própria constituição cultural - para naturalmente assumir e transitar
pela perspectiva da genericidade humana, do humano genérico. Em
particular, uma atitude, honestamente assumida e prática, de respeito e de
valorização das perspectivas culturais e dos devires das perspectivas culturais
dos seus clientes, consequência de uma postura desenvolvida e consciente de
respeito e de valorização da cultura alteritária de outras pessoas.
Como qualquer pessoa, o terapeuta carece naturalmente de assumir e afirmar a
perspectiva de suas próprias configurações cuturais. Ele não poderia prescindir
disto, nem isto seria necessário. Na verdade seria improdutivo e danoso. Em
particular na medida em que é exatamente a riqueza da sua própria configuração e
ressonâncias culturais que se constitui como um dos recursos fundamentais de sua
participação no chamado processo psicoterapêutico.
O que ele não necessita, como tal, o que é na verdade altamente danoso para o
processo da terapia, e potencialmente danoso para o cliente, - além de ser
altamente tóxico para ele próprio - é de uma atitude etnocentrista. É de
uma estúpida atitude facciosa de uma suposta valorização de umas culturas, as
suas ou as que ele idolatra, e de desvalorização das demais, ou de algumas
escolhidas.
Característicamente, o bom terapeuta tem bem integrada em si próprio a sua
própria perspectiva cultural. Desenvolve naturalmente, por outro lado, um
respeito profundo e interêsse por outras perspectivas culturais. O respeito e
interêsse dele por outras perspectivas culturais leva-lo-á sempre a uma atitude
dialógica no seu encontro com elas, em particular no âmbito de sua prática
profissional. Uma atitude de respeito e de valorização da particularidade da
perspectiva cultural do outro, de sua singularidade e diferença, na pontualidade
do seu encontro com ela. O bom terapeuta integra, naturalmente, a perespectiva
do humano genérico, da genericidade humana. O bom terapeuta, na verdade,
desenvolve um profundo interêsse e fascinação pelo fenômeno humano, e pela
mutiplicidade de suas formas. Em particular de suas formas culturais. Interessa
a ele a afirmação e os desdobramentos produtivos desta multiplicidade no drama
da existência pessoal da pessoa do cliente com que ele interage.
De modo que ele potencializa-se para participar de uma relação que contenha,
da parte dele, um respeito profundo para com a constituição cultural do cliente,
e para com os desdobramentos desta no âmbito da existência dele.
Sempre haverá algum nível de tensão cultural entre o terapeuta e o cliente.
Tensão que, eventualmente, pode subir a níveis muito significativos. Isto, é,
acredito, parte e recurso do processo psicoterapêutico. O importante é que o
terapeuta preserve a sua atitude efetivamente dialógica com relação ao cliente,
nos termos em que Buber define, e o seu genuíno bom humor e espírito esportivo.
Em casos mais raros, isto pode não ser possível.A psicoterapia deve ser então
suspensa e o cliente deve procurar um outro terapeuta.
CULTURATIVO E CULTUROGÊNICO, O CLIENTE ELABORA-SE E RE-ELABORA-SE
CULTURALMENTE NA SUA RELAÇÃO COM O PSICOTERAPEUTA, E NA SUA COTIDIANIDADE.
Concluindo, é importante insistir no fato de que, em sendo a psicoterapia um
processo de elaboração e re-elaboração cultural do cliente, não podemos dizer,
em momento algum, que é o terapeuta quem opera esta elaboração e re-elaboração
cultural do cliente, ainda que sua própria formação cultural pessoal possa ser
um interessante recurso no processo de auto elaboração e re-elaboração cultural
do cliente.
É necessário considerar, ao contrário, que a psicoterapia, como processo
psico-sócio-cultural, carece de ser entendida como um processo interpessoal
transacional amplo de relação entre o psicoterapeuta e o cliente, enquanto seres
individuais e transindividuais.E que está fora do controle consciente e
voluntário do terapeuta, em sua globalidade e em suas determinações mais
significativas.
De modo que não são as intervenções conscientes e voluntárias do terapeuta
que respondem por estas determinações mais significativas do processo
psicoterapêutico e de seus efeitos, mas a dinâmica da interação e da transação
psico-sócio-cultural ampla entre ele e o cliente, que envolve níveis que estão
fora do seu controle consciente, e que envolve dimensões de sentido, para o
cliente, que ele, terapeuta, apesar de ser parte envolvida, não pode entender ou
sequer, frequentemente, apreender, tal o caráter subjetivo e privado da
importância pessoal deles para o cliente.
O poder de auto-elaboração e re-elaboração cultural do cliente decorre de sua
condição humana. É apenas potencializado pelo processo da psicoterapia e por sua
relação psico-sócio-cultural com chamado psicoterapeuta. O cliente é
culturativo e culturogênico a partir de suas heranças culturais, de suas
capacidades, necessidades e sentidos, e dos recursos disponíveis em sua
atualidade existencial.
5. A Psicoterapia Vista da Perspectiva Psicossocial de uma Ecologia da(s)
Cultura(s).
Acredito que o futuro do que entendemos por psicoterapia muito terá a
ver com o desenvolvimento de uma ecologia cultural. Mais especificamente,
com o desenvolvimento da perspectiva antropológica e psicossocial de uma
ecologia cultural.
Na verdade, as perspectivas aqui apresentadas conduzem-nos nesta direção.
Os ecossistemas sócio culturais nos quais nos constituímos e vivemos, e nos
quais constituem-se e vivem clientes e psicoterapeutas - em particular os
sistemas sócio-culturais urbanos -, são, como sabemos, sistemas culturais
múltiplos, complexos, e muito dinâmicos. Suas culturas se sobrepôem e se
articulam dinamicamente, se chocam e conflitam, segundo planos de determinações
étnicas, históricas, econômicas, regionais, religiosas, de gênero e outras.
Isto significa dizer que as pessoas socializadas nesses sistemas culturais
socializam-se a partir da incidência confluente sobre o seu desenvolvimento de
influências, tensões e conflitos culturais, mobilizados a partir das relações
das várias determinações étnicas, históricas, econômicas, regionais, religiosas,
de gênero de sua própria cultura, e das relações desta com outras culturas que
compôem o ecossistema em que ela se desenvolve e vive. As pessoas constituem a
sua subjetividade, constituem-se, como produtos e produtoras culturais, a partir
de da incidência sobre o seu desenvolvimento e sobre o desenvolvimento de suas
famílias e grupos de refrência de uma multiplicidade de influências culturais
distintas: de suas forças, tensões e conflitos. Sua subjetividade, sua
pessoalidade, constituem-se como produto, como articulação mais ou menos tensa,
de todas estas influências culturais..
Evidentemente que, por sua própria condição, a pessoa tem um poder
constituinte, tanto de si própria como de seu mundo, e não é um simples joguete,
tábula rasa, para as forças culturais de seu ecossistema. Não podemos
negligenciar, todavia, que este próprio poder constituinte da pessoa é
culturalmente mediado, e que, desde a mais tenra infância, ela é socializada no
âmbito, e a partir, de influências, tensões e de conflitos culturais.
Sabemos, por outro lado, que as influências culturais não têm um peso
idêntico no processo de constituição da pessoa. A partir de suas vinculações
familiares e sociais em geral, certos componentes culturais têm um peso maior ou
exercem um papel dominante. Estas dominâncias, entretanto, não eliminam a
presença e participação de outras influências menos fortes, ou mesmo de
influências de força relativamente equivalentes.
De nossa vivência cotidiana e de nossa prática profissional, é fácil
abstrair, por exemplo, um cliente, de raízes Íbero-Lusitanas, greco-socráticas,
judaico cristãs (Católicas), fermentada intensamente por elementos
pré-socráticos e pagãos. Que vive no meio urbano de uma pequena cidade do
Nordeste do Brasil, e que constitui-se como ser da cultura individualista
burguesa, precariamente burguesa, deste meio urbano, mas que descende e ainda
compartilha fortemente da cultura do meio rural sertanejo do Nordeste,
comunitária, fortemente patrimonial e patriarcal, costituída de elementos
semifeudais, e em processo de intensas transformações. Nosso hipotético cliente,
pode, ainda compartilhar de inúmeras dimensões da cultura de um mundo burguês e
de um capitalismo avançado, veiculado pelos meios de comunicação que constituem
o seu cotidiano e por suas atividades de consumo.
Podemos, ainda, facilmente abstrair um cliente, de raízes também
Íbero-Lusitanas, e Mouras, perdidas no tempo, que descenda, mais imediatamente,
da cultura do engenho, da "Casa Grande", mais especificamente, escravocrata,
patrimonio-patriarcal, semifeudal e comunitária, e que, passada a decadência da
"Aristocracia do Engenho", busca constituir-se como ser da cultura do meio
urbano, individualista, cultura orientada para uma ética do trabalho e para o
arquétipo do "selfmade-man", de várias formas antagônica às suas influências
culturais mais antigas.
Podemos imaginar uma cliente brasileira, paulista do interior de São Paulo,
de origem Italiana, que continua o seu processo migratório até uma capital do
Nordeste do Brasil, e que busca constituir-se aqui como uma nova pessoa, novo
ser cultural, em um novo mundo, a partir de suas influências culturais
ancestrais e de suas influências culturais recentes, nos desafios emergentes da
cotidianidade de sua atualidade existencial.
Podemos imaginar, ainda uma mulher Negra, descendente da Cultura dos Negros
da África trazidos para o Brasil como escravos. Descendente, em especial da
Cultura de Resistência do Povo Negro durante a escravidão, que estuda em uma
universidade e adquire um diploma e uma profissão universitárias, que a
diferenciam marcadamente da maioria de seus parentes e amigos mais antigos. E
que tem que constituir-se e reconstituir-se culturalmente, -- a partir de suas
influências culturais mais antigas, das quais ela não pode se desligar e que
são, na verdade, importantes fontes de força, e conflito, para ela, e de suas
influências culturais recentes, no âmbito da cultura do mundo burguês urbano de
uma cidade brasileira.
Ou ainda um cliente cuja família paterna desenvolveu-se no Sertão do Nordeste
do Brasil, e que migrou para a Cidade de São Paulo. E cuja família materna
desenvolveu-se no Oeste do Paraná, tendo igualmente migrado para a Cidade de São
Paulo. E ele carece de desenvolver-se a partir dos dois conjuntos de influências
culturais, tendo ainda, e em especial, de constituir-se como um ser cultural
cosmopolitamente paulistano.
Ou uma cliente de origem Íbero-Espanhola, filha de um pai artesão e de mãe
doméstica, que se desenvolve em algum lugar da Província, e que migra para a
Cidade de Buenos Aires, em um certo momento de sua vida, e que carece de
preservar a sua cultura original, ao mesmo tempo em que tem que diferenciar-se
desta, para constituir-se como ser cultural urbano da metrópole.
Ou um jovem, filho de pais de origem Judaica Polonesa, que emigraram, para o
Brasil e que se fixaram na Cidade de São Paulo, e que carece de desenvolver-se
preservando elementos que lhe são caros de sua cultura ancestral, ao mesmo tempo
em que carece de desenvolver novos elementos culturais, concernentes aos
desafios e questões das relações sociais de sua atualidade existencial no novo
contexto sócio-cultural adotado por sua família.
As cidades do Nordeste do Brasil são interessantes para a exemplificação
destes processos, na medida em que uma significativa multiplicidade de
influências e determinações sócio culturais conflitivas constituem a sua cultura
mais geral. Determinando intensos processos de transformação sócio-cultural, com
importantes repercussões no processo de desenvolvimento das pessoas.
Temos uma tumultuada, e disrrítimica, transição de uma formação sócio
histórica patrimonio-patriarcal, semi-feudal, rural, para uma formação que tende
para o mundo burguês de um capitalismo urbano. As duas formações têm
características não só diferentes, mas francamente antagônicas, frequentemente.
Como, por exemplo, o caráter comunitário da formação patrimonio
patriarcal, rural - baseada na família patriarcal, do qual diferencia-se a
cultura individualista burguesa do capitalismo urbano.
Os indivíduos que constituem o intenso processo migratório do meio rural para
o meio urbano realizam um processo que está longe de ser apenas um processo de
movimentação geográfica. É, antes, um processo abrupto de metamorfose cultural,
da cultura de um ecossistema comunitário para a cultura de um ecossistema
individualista. No primeiro, a pessoa existe enquanto parte do grupo
comunitário - "De que família você é?". O outro representa a dissolução
da comunidade patriarcal, e a atomização da pessoa, com a imposição de
importantes transformações à estrutura e dinâmica familiar. Transformações que
vão tensionar o desenvolvimento da pessoa, que já não será mais um ser
comunitário, mas uma pessoa inevitavelmente destinada à individualidade.
Nesta perspectiva, temos importantes fatores de constituição das pessoas no
Nordeste, em particular no que diz respeito à sua constituição cultural. Esta
perspectiva, entretanto, este corte no plano da formação sócio histórica,
está longe de ser o único relevante. Temos importantes dimensões ligadas ao
plano étnico, ao plano religioso, ao plano regional, e outros.
Uma mega-cidade como São Paulo, ou o Rio de Janeiro, possui, também,
evidentemente, importantes questões neste sentido, determinadas,
especificamente, tanto por transformações próprias da cultura do meio urbano,
como por determinações étnicas, econômicas, de cultura regional, religiosas e
outras. Na verdade, todas as cidades são o espaço por excelência para a
importante participação destes fatores, tensões e conflitos no processo de
constituição das pessoas.
Podemos considerar algumas expressões de processos limites em certos casos de
hibridismo cultural e racial. Lembro-me de um Isrelense falando, emocionado, em
1982, dos filhos de casamentos entre Judeus e Árabes. Era o auge de uma das
crises militares no Líbano. O que o emocionava era a beleza e a força daquelas
pessoas. Quando penso que hoje, 1994, os Plestinos discutem se a legislação que
vigorará na Faixa de Gaza, devolvida aos Plestinos, será a legislação
Árabe Egípcia, anterior à ocupação israelense, ou se será a própria legislação
do Estado de Israel, imagino o que é que isto pode significar como um sintoma de
relações culturais interétnicas, numa situação extrema. Seus problemas,
dificuldades e possibilidades, no processo de constituição cultural das pessoas
naquela região, a partir de formações étnicas tão fortemente diferenciadas,
conflitantes, e de alguma forma compartilhadas, em particular por filhos de
casamentos mistros.
Ao longo da História da Humanidade, os Judeus têm vivenciado inúmeras
situações deste tipo, frequentemente com conotações extremamente dolorosas e
difíceis, mas também ricas de possibilidades. Ocorre-me sempre de pensar no
"hibridismo" Judeu-Germânico longamente constituído, ao longo das relações
seculares entre esses dois povos, e que, por um lado degenerou no bárbaro
massacre dos Judeus, mas que, por outro foi responsável por tão importantes
produções culturais. Na área da Psicologia e da Psicoterapia, ele foi
fundamental. Homens como Freud e muitos outros psicanalistas, Perls, Moreno,
Buber, Frankl, Binswanger, e outros. Einstein, na Física. Thomas Mann, na
Literatura. Adorno, Walter Benjamin, Horkeheimer, Fromm, na Sociologia. Isto
para ficar apenas em alguns exemplos.
Os exemplos todos são necessariamente simplificados, esquemáticos e ideais,
diante da complexidade, dinamismo processual, especificidades e sutilezas das
realidades concretas, efetivamente vividas. Podem, entretanto, variar
ad-infinitum. Em particular os retirados da simples vivência cotidiana dos
consultórios de psicoterapia. Guardarão sempre a marca de fatores culturais, e
das relações, tensões e conflitos deles na consituição das dificuldades atuais
ou estruturais do cliente.
De modo que uma ecologia cultural, em especial a perspectiva
antropológica e psicossocial de uma ecologia cultural - dos ecossistemas
sócio-culturais urbanos, em particular - pode ser fundamentalmente importante
para psicólogos e psicoterapeutas, e para a teoria e prática da psicologia e da
psicoterapia..
Uma a perspectiva antropológica e psicossocial de uma ecologia cultural
que possa dedicar-se, ao certamente problemático e difícil, desafio de
entender como interagem entre si os vários elementos constituintes, e as várias
determinações culturais distintos, no interior de um ecossistema cultural. Uma
ecologia cultural que possa situar-se e desdobrar-se numa perspectiva
psicossocial, e que possa compreender a constituição da subjetividade da pessoa,
a partir da particularização da multiplicidade de influências, tensões e
conflitos macrossociais destes vários elementos e determinações culturais; em
particular de suas relações. Uma ecologia cultural que possa entender as
especificidades e a dinâmica da psicoterapia, seus agentes, processos e
resultados neste contexto multicultural. Uma tal ecologia cultural, pode
ser fundamentalmente importante para a elucidação dos processos de constituição
da pessoa, e, em particular, para a elucidação da natureza e da constituição
como tais do cliente e do psicoterapeuta, dos processos e resultados da
psicoterapia. Auxiliando, de um modo decisivo, no processo de recontextualização
conceitual deles, e de seu desempenho prático.
Na perspectiva de uma ecologia cultural, podemos entender a psicoterapia como
uma instituição especializada em abrigar o desenvolvimento e a prática de
processos específicos de relações entre o que chamamos de terapeutas e clientes,
processos de relação que potencializem as capacidades culturativas e
culturogênicas destes, no sentido de seus processos de auto-constituição
e reconstituição, como produtores culturais efetivos, a partir de
suas heranças sócio culturais, dos poderes e das impotências, viabilidades e
inviabilidades, decorrentes dos conflitos e tensões entre os vários componentes
dessas heranças.
Aparentemente, quanto mais complexo e dinâmico é um ecossistema
sócio-cultural, quanto mais intensos e diversificados são os processo de suas
mudanças e trans-form-ações sócio-culturais, maior a necessidade da
psicoterapia, e mais intenso e frequente é o processo de constituição de
clientes de psicoterapia, e dos chamados psicoterapeutas. Uma vez que
maiores são as tensões, conflitos e dificuldades vivenciados pelas pessoas, no
seu processo de desenvolvimento e de constituição como produtos e produtoras
culturais.
6. Conclusão
A necessidade de uma redefinição e de uma recontextualização da psicoterapia,
de seus agentes, processos e resultados é cada vez mais evidente e interessante.
A importância dos fatores culturais é cada vez mais óbvia. Compete-nos
considerar a especificidade destes fatores, e os requisitos éticos, filosóficos
e antropológicos necessários para que possamos considerá-los adequadamente.
Manter o status-quo conceitual da psicoterapia é cada vez mais insustentável.
Não propomos aqui nenhum modelo de psicoterapia. Propomos fundamentalmente
uma perspectiva de compreensão do que efetivamente ocorre já como processos de
psicoterapia, e resultados psicoterapêuticos, na interação entre os chamados
terapeutas e clientes.
Acredito ser esta redefinição e recontextualização da psicoterapia uma
demanda do seu tempo, e do tempo de nosso desenvolvimento cultural. Não fazê-lo
é que me parece que pode implicar em processos improdutivos e negativos. Afinal,
"Se não agora, quando? Se não nós, quem?"
Site do autor:
http://www.terravista.pt/fernoronha/1411
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